quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A Força – A Cura do Instinto Ferido

Por Ana Marques

A floresta está escura e quase silenciosa. Caminhamos lentamente por ela enquanto procuramos incansavelmente. Ruídos esparsos nos sobressaltam e, apesar da coragem com que nos investimos antes de adentra-la, não estamos preparados para o que desconhecemos. Somos seres desprotegidos ali, à mercê de qualquer predador que resolver nos atacar. Não conseguimos distinguir o que é o vento movendo um galho de um leopardo rondando sua presa.

Um rugido solitário soa ao longe...

Rapidamente seguimos nessa direção. Atravessamos os galhos cortando-os com o canivete. Temos pressa, temos muita pressa em chegar àquele som. Percorremos a floresta sem mais nos importarmos com os perigos que ela contém, nossa tarefa é urgente! Apuramos os ouvidos tentando ouvir novamente, mas os sons se misturam nos confundindo. Estamos quase correndo, tal é o nosso desespero por encontrar. Tanto nos apressamos que quase caímos numa armadilha esquecida por um caçador. Continuamos, pois o perigo nos mostra que é urgente continuar a busca.

Tropeçando, desorientados, cansados e famintos seguimos caminhando. Por um momento acreditamos perder as esperanças e então... mais um rugido solitário.

Guiamo-nos por esse ruído. Passamos a caminhar devagar para não perder novamente o senso de direção. Mais um rugido e estamos a cada momento mais perto.

Numa clareira avistamos a figura deitada de um leão. Chegamos até perto dele vagarosamente para que não se assuste. Paramos e deixamos que fareje o ar. Permitimos que se acostume ao nosso odor. Mais um tempo e nos aproximamos mais, até que podemos toca-lo. Sua cara mostra desconfiança e, ao olharmos com um pouco mais de atenção, compreendemos o motivo: suas garras foram cortadas, seus dentes arrancados, a maravilhosa juba foi raspada e existem feridas por toda parte. O leão que buscamos foi destituído de sua força e poder. Seus símbolos foram de si alijados. Sua autoconfiança foi minada. Olhamos esse triste espetáculo e nos olhos do leão lemos a acusação clara. Ele sabe quem fez aquilo com ele: fomos nós.

“Os impulsos suprimidos e feridos são os perigos que ameaçam o homem civilizado: os impulsos não reprimidos são os perigos que ameaçam o homem primitivo”
Aniela Jaffé, Symbolism in theVisual Arts

Nosso leão está ferido. É preciso resgatá-lo e devolver a ele a dignidade perdida. É preciso curá-lo para que recupere a sua força. Para que recuperemos a nossa própria força.


Simbolismo Tradicional

Uma donzela, com um chapéu em forma de lemniscata (símbolo do infinito), está suavemente abrindo a boca de um leão. Seu rosto e sua postura são serenos, seus pés estão firmes no chão. O leão não parece amedrontado, mas enfeitiçado. A moça não buscou domesticá-lo ou subjugá-lo, ela o acalma. Eles estão apoiados um no outro, e é esse apoio mútuo que permite o equilíbrio. A força foi conquistada amorosamente e ninguém precisou abrir mão de sua essência para tê-la.
É necessária muita coragem para enfrentar o leão. Muita ousadia para abrir-lhe a boca. Da mesma forma, foi inovador da parte do leão aceitar essa interferência, que não aconteceria se a jovem não tivesse conquistado sua confiança. A agressão não foi necessária porque abriu-se mão do domínio em prol da cooperação.
Vemos aqui uma clara aceitação dos aspectos indomados do inconsciente. Aniquilá-lo seria perder a própria essência e ser devorado por ele. Invadí-lo seria forçá-lo a nos ferir. Compreendê-lo é trazê-lo até nós. Conhecê-lo mostra que podemos exercer o controle, e dessa forma, promover uma real interação. A moça é terna, suave e persistente. Sem a persistência ela jamais teria se aproximado do leão. O leão é amoral, instintivo e ágil. E é seu instinto que permite a aproximação dela. Se olharmos a figura detalhadamente, veremos que ambos formam uma única e harmoniosa figura. A força bruta aqui não é vencida, ela é integrada.

A Bela e a Fera

O conto “A Bela e a Fera” tem encantado gerações de crianças e após a filmagem de Walt Disney, houve um aumento significativo da importância desse conto. Numa de suas inúmeras versões, Bela pede uma rosa ao pai que a pega de um jardim num castelo aparentemente desabitado. Ao fazê-lo desperta a ira de seu dono: um leão. O Leão só permite que ele viva, se a filha viesse ao castelo e ficasse prisioneira no lugar do pai. Apesar de aparentemente aceitar, o pai pretendia despedir-se da filha e voltar para a fera. Mas a menina não aceita e volta em seu lugar. Após temer muito a fera, ela passa a se aproximar dela. Apesar de ser um leão, ele é gentil e delicado. O pai doente a obriga a se ausentar, e embora tenha prometido voltar logo, ela demora. Quando volta, vê que a fera está agonizando. Chora sobre seu corpo e beija-lhe os lábios, nesse instante a fera se transforma num belo príncipe. Ele conta que foi amaldiçoado e que apenas o amor poderia quebrar essa maldição, um amor que fosse mais forte que sua temível aparência. Eles se casam e vivem felizes para sempre.
Uma bela história. Mas, principalmente, uma história de magia e recuperação. Bela precisa vencer sua repulsa para se aproximar da fera e descobrir o amor. A fera precisa aprender a confiar para que sua maldição seja quebrada. O amor é a força transformadora que une duas naturezas aparentemente incompatíveis. Sem que esse amor seja descoberto e funcione como elo de ligação a fera morreria e Bela teria uma parte importante de sua história perdida irremediavelmente. E seria a melhor parte.
Embrenhar-se na floresta para buscar o leão que (acreditamos) irá nos devorar é um mergulho direto no inconsciente. Bela não vai disposta a vencê-la ou matá-la, mas a se entregar. Ela não quer ser mais forte ou mais esperta que essa força primordial, apenas vai ao seu encontro. Pensando encontrar a destruição, encontra o amor. E essa é a força que permite com que ela atravesse as barreiras sociais simbolizadas pela feiúra. Libertando-se de barreiras ela amplia os horizontes da própria vida e eles são felizes para sempre.

O Leão da Neméia

Alguns tarôs antigos, e o atual tarô Mitológico, trazem a figura de Hércules matando o leão da Neméia como símbolo desse Arcano. Apesar de haver uma clara simbologia relacionando a vitória de Hércules a predominância da civilização sobre o Leão, significando a barbárie, tentar utilizar essa correlação com o tarô não é algo com o quê eu consiga concordar. A força primordial do leão, um animal que prima simbolicamente pela coragem e realeza, não necessita ser sufocada para que usando sua pele possamos absorver sua força. Este leão não é nosso inimigo, ele faz parte de nós!

Nesse arcano estamos indo a busca de nossos instintos naturais: aqueles que nos mantém vivos e alertas. Eles são a diferença em nossa força se estiverem integrados a nós. Se os ignorarmos, tornando-os feras enjauladas e sem alimento, eles poderão se rebelar e nos devorar. Eles se voltarão contra nós. Tenho encontrado muito o verbo domar quando se trata desse arcano, termo com o qual discordo profundamente. Se pensarmos em como um animal é domado em circos (ou mesmo fora deles), veremos que torturas são impingidas, a cada erro são dados castigos mais fortes e, uma perda da identidade natural quando são mantidos em jaulas minúsculas com condições abomináveis de vida. Toda a altivez do animal é reduzida a pó, embora necessite fazer um bom espetáculo, senão os castigos podem ser ainda maiores.

A sociedade como um todo impôs que todos devíamos ser civilizados. Devíamos rejeitar os instintos naturais (diretamente ligados à intuição) em prol do que podíamos explicar ou esperar. Somos educados a minar esses instintos, sem conhecê-los direito, de forma que não percebemos sua importância até que precisamos nos defender e algo invisível nos falta. Precisamos dizer não e não sabemos como, precisamos demarcar nosso espaço para que não nos invadam e não entendemos demarcar, precisamos preservar nossa auto-estima de pessoas invejosas e tememos magoá-las nos distanciando. Quando mutilamos nosso instinto, nos tornamos doentes e indefesos. Suas garras são nossas garras, seus dentes afiados são nossos dentes afiados. Sem isso estamos à mercê. Se o desorientamos, não poderemos perceber quando estiverem invadindo nosso espaço. É o seu alerta que irá nos avisar quando estivermos a um passo da autodestruição.

"Ainda que dê a impressão de dominar o leão, a dama também participa da sua essência."
Sallie Nicholls – Jung e o Tarô


O Equilíbrio – A Busca e a Cura

Voltemos a frase do final do primeiro tópico é preciso curá-lo para que recupere a própria força. Para tanto, precisamos sair em busca de nosso instinto e parar de aparar-lhe as unhas ou arrancar-lhe os dentes. É preciso acalmá-lo para que ele nos deixe cuidar dele. No início pode não ser fácil, mas é necessário.

“Eu sei, que o coração perdoa
Mas não esquece à toa e eu não esqueci
Não vou mudar, esse caso não tem solução
Sou fera ferida, no corpo e na alma
E no coração”
Fera Ferida – Roberto Carlos e Erasmo Carlos

O equilíbrio e, consequentemente, a cura virá da eliminação do medo, dessa forma faremos as pazes. Não podemos continuar alimentando o medo de nós mesmos. A falsa idéia de que estar equilibrado é ser sempre calmo e controlado é uma armadilha. Se algo nos irrita precisamos buscar a causa do perigo, não tentar eliminar o sintoma. Precisamos rugir de vez em quando. Se a ira nos torna pessoas insuportáveis, é preciso entender o motivo pelo qual ela nos acomete e não somente reprimi-la.

Fazer com que a fera volte para nós e a fazer parte de nós é um longo processo. Mas que pode resgatar a noção de realidade: aquela em que não nos violentamos para sermos agradáveis.

"Não estou no mundo para corresponder às expectativas alheias. Minha vida pertence a mim. E isso é igualmente verdadeiro para os demais seres humanos."
Nathaniel Branden

É preciso uma força brutal para reconhecer e aplicar a frase acima. É preciso que esta força não tenha sido domesticada dentro de nós mesmos para que tenhamos a energia necessária para conquistarmos nossa própria vida. É hora de curar as feridas do seu leão, dar a ele tempo para convalescer e depois deixá-lo  recuperar a autoconfiança. Recusemos colocá-lo em cativeiro. Fazer isso é permanecer em cativeiro também.