domingo, 10 de junho de 2012

A Pequena Vendedora de Fósforos

O Louco e a Fuga da Realidade

Por Ana Marques

Hans Christian Andersen ficou famoso por seus contos infantis, alguns de final trágico ou triste e todos contendo uma lição de moral (cristã) bastante evidente. Nelas podemos encontrar, se procurarmos, os Arcanos do Tarô e seus variados aspectos, as inúmeras faces sob a forma, por vezes misteriosa, de heróis e heroínas que moram no imaginário popular. Num dos mais belos contos de Andersen, encontramos o Arcano 0 (ou 22) – O Louco – fugindo da vida que leva e enganando a si próprio. Eis a história da pequena vendedora de fósforos:

imagem: Mickey89Eli


“Uma pequena menina andava pelas ruas geladas. Era véspera de Natal e as pessoas estavam em suas casas para comemorar essa data especial. Naquele dia, ninguém comprara um fósforo. Todos estavam ocupados em arrumar árvores, embrulhar presentes e fazer a ceia.


A menina, que há muito perdera os sapatos, andava descalça sobre a rua gelada. Tentava desajeitadamente oferecer fósforos para aqueles que, hora ou outra, passavam apressados pela rua. Porém, apesar de seus lindos cabelos loiros e do olhar febril, os passantes não a viam, preocupados que estavam com a própria vida.

Ela seguia em frente, não tinha coragem de voltar para casa sem ter ganho nenhum dinheiro porque sabia que seria castigada. Cansada, sentou-se no degrau de uma escada, numa viela escura. Estava enregelada, e não tinha um bom casaco (ou meias e sapatos) para se aquecer, apenas seus fósforos. Olhou para eles e pensou que, se seria castigada de qualquer forma, pelo menos não passaria tanto frio. Decidida, acendeu o primeiro pensando em tentar acender uma pequena fogueira. Entretanto, quando a chama brilhou, seu olhar perdeu-se dentro da imagem de sonho que viu no brilho do fogo: uma grande, bela e enfeitada árvore de natal, daquela que tinha sonhado sua vida inteira. A árvore resplandecia e a menina olhava encantada para ela. Havia fogo na lareira e o frio tinha ido embora. Esticou a mão para tocar a árvore e nesse momento... o fósforo se apagou, levando todo o sonho embora.

A menina ficou desolada, tinha voltado à escuridão da rua e ao frio da noite. Resolutamente acendeu outro fósforo e nova imagem se apresentou: um grande peru assado com maçãs estava sendo colocado na mesa, havia nozes, doces e uma série de pratos que ela nem mesmo saberia nomear. O cheiro estava delicioso e ela se apressou para provar a comida, porém não foi rápida o bastante... o fósforo se apagou levando seu sonho com ele.

Imediatamente acendeu outro e para sua surpresa a chama mostrou-lhe uma pessoa. Sua querida avó, a única pessoa que havia realmente a amado e tratado com bondade – mas que já havia partido desse mundo – começou a se aproximar dela. Desesperadamente, a menina começou a acender um fósforo atrás do outro para não perder essa imagem. A avó chegou perto dela e sorriu, a abraçou ternamente e chamou para ir embora com ela. A menina sorriu verdadeiramente em anos: ela iria com a avó, viveria aquele sonho onde não havia frio, nem dor e nem fome. Onde alguém a amaria realmente. Agarrou-se a avó e foi subindo com ela em direção ao céu estrelado, para onde ela ia sempre seria natal, sempre haveriam festas e presentes, e ela seria amada de verdade.



imagem: Mickey89Eli


No dia seguinte, pessoas que passavam encontraram o corpo gelado da menina encostado na escada. Apesar da pena de ver uma criança tão nova sucumbir daquela forma, todos notaram o sorriso de felicidade e a expressão de paz que ela trazia no rosto e se perguntavam com o que ela sonharia antes de morrer.”


A menina, personagem da nossa história, anda a esmo pelas ruas e tenta, desoladamente, chamar a atenção das pessoas que a ignoram. A sua carência excessiva de uma figura que a guie faz com que ela se torne um problema para a sociedade local, por isso todos passam por ela fingindo não vê-la e não perceber sua situação desesperadora. Todos representantes do Louco: mendigos, crianças de rua, bêbados, sem teto; quem realmente olha para eles?

Como o Louco, ela é inocente e inexperiente, e por isso não tem noção das conseqüências de seus atos: prefere ficar escondida numa escada gelada a voltar para casa. Seu instinto de sobrevivência – simbolizado no Arcano pelo cachorro – a abandonou, em algum momento de sua vida ela perdeu-se dele. A carência de qualquer afeto, faz com que ela se desligue de si mesma, e mesmo os mais básicos instintos de proteção parecem inexistir: ela não procura um lugar quente ou ao menos fechado, não junta gravetos para poder fazer uma fogueira. Simplesmente acende um fósforo, e desperdiçando a chama da vida, inicia sua fuga.

A Fuga da Realidade



O Louco possui a capacidade de passear e subverter todos os demais Arcanos: ele é o grande viajante do tarô. Não existe uma trajetória linear quando ele está envolvido e sua tarefa é mostrar novos ângulos, aprender o impensável das formas mais inesperadas possíveis. No entanto, da mesma forma, ele é aquele que de tanto caminhar, pode cair em círculos viciosos. Ingênuo, pode acreditar nas mentiras do Mago. Imaturo , pode ignorar os sábios conselhos da Sacerdotisa. Rebelde, pode passar ao largo da autoridade da Imperatriz – deixando assim de ser nutrido – e do Imperador – perdendo a oportunidade de reconhecer limites. Os seus limites e os dos outros. Irresponsável, perde a capacidade de compreender os ensinamentos que o Hierofante pode disponibilizar. Não possuindo a base inicial, o Louco se perde em suas próprias possibilidades e, ao invés de trilhar um novo caminho, acabar por não trilhar caminho algum.

A menina é o retrato disso: não tem pais que velem por ela, sua avó (que a amou) já se foi. Ela teme o mundo adulto, por isso tenta vender-lhes fósforos – a chama da vida – mas não consegue chamar-lhes a atenção. Na realidade, nem mesmo poderia. A chama que ardia internamente nela se apagou e pessoas assim tendem a passar despercebidas. A chama externa não é forte o bastante, não conseguindo nem mesmo durar tempo suficiente para que a menina possa fugir de maneira satisfatória da própria realidade.

Os fósforos são acendidos, e se apagam rapidamente, porque o fogo produzido não é alimentado – vida se alimenta de vida – e a menina esqueceu (ou deixou de lado) essa premissa básica que poderia ter significado a sua sobrevivência. A cada chama acesa, ela foge um pouco mais. Ela não deseja salvar-se, apenas sonhar. Assim como os loucos que vemos nas ruas ou em manicômios, é mais fácil ser Napoleão e colocar a mão por dentro do casaco numa eterna pose imaginária, do que buscar a si mesmo. Para que buscar a solução para os problemas reais: na imaginação tudo acontece magicamente. A realidade exige comprometimento e disposição para deixar de ser ingênuo e aprender com os demais Arcanos. É preciso seguir a jornada para salvar-se da morte certa. Porém, ela prefere sentar-se na escada gelada e acender os fósforos.

A vida, mesmo que escapando rapidamente de suas mãos, mostra-lhe sonhos dourados: a árvore, o peru, a avó. Ela sonha com a beleza, com a satisfação e com o amor. Ela deseja, mas não busca alcançar. Desesperada para continuar sonhando, não se importa em desperdiçar toda chama que possui consigo, e quando vê a avó se aproximando sucumbe inteiramente. Ela se entrega ao sonho e abdica completamente da realidade. Como as pessoas que vivenciam as armadilhas dos sonhos inalcançáveis e realidades frustrantes, ela sente que é infinitamente mais agradável sonhar, mesmo que isso signifique matar a própria alma. Prisioneira das fantasias do Louco, a menina se entrega ao sonho sem concretização e deixa-se matar pelo frio.

O que não realiza, se exaure e o calor vai embora. Ela morre, mas seu sorriso mostra que está em paz: morrer é a última e definitiva fuga.