domingo, 13 de maio de 2012

Sapatinhos Vermelhos - A Sacerdotisa Mutilada


Por Ana Marques

Nenhuma busca é em vão. Somos todos buscadores de sonhos, de conquistas e de realizações. Nesse caminho, porém, inseridos numa sociedade castradora e formadora de uma homogeneidade doente, é comum irmos abrindo mão de aspectos importantes de nosso eu e da nossa capacidade crítica em prol de uma melhor aceitação perante aos outros. Como quem anda a esmo numa floresta desconhecida e ameaçadora, pedaços de nós mesmos vão sendo arrancados pelos galhos cortantes e deixados para trás, até que cheguemos mutilados ao encontro da civilização. Inteiros não seríamos aceitos, fora de nós aquelas partes nem mesmo parecem fazer sentido, e calcados nesse raciocínio deixamos que essas partes morram à míngua.

No entanto a floresta é imaginária, embora a mutilação seja real. Nossos pedaços permanecem esperando por nós, aguardando que os resgatemos e não joguemos mais a culpa de nossa incapacidade de assumir quem realmente somos em galhos fantasiosamente cortantes. A Sacerdotisa é o arcano que primeiro ilustra a busca interior e a compreensão de si mesmo, o reconhecimento do eu e dos aprendizados que temos na vida. Quando mutilamos esses aprendizados e renegamos partes de nós mesmos, profanamos nosso templo interior - o reduto da Sacerdotisa - em prol de uma aceitação que nos deixa dependentes do modus vivendi externo. Para ilustrar esse processo veremos o conto Sapatinhos Vermelhos, de Hans Christian Andersen.



"Era uma vez uma menina que morava na floresta e um dia resolveu fazer sapatos para si mesma. Recolheu pedaços de pano vermelho aqui e ali e costurou sapatos vermelhos para si. Sentia-se linda com eles, porque sua cor forte a deixavam feliz. Saltitava entre as árvores e mesmo quando a comida era um problema, sentia-se confiante por causa da beleza de seus sapatos e de sua capacidade de fazê-los.
Um dia, uma boa senhora a viu sozinha e apiedou-se. Chamou-a e convidou-a a entrar na carruagem para viver com ela, em que a senhora cuidaria de seu bem estar e a menina lhe faria companhia. Tentada pela proposta de não mais precisar passar fome e poder ter uma vida mais confortável, a menina aceitou o convite e entrou na carruagem dourada.
Chegou na bela casa da Senhora e foi levada a tomar banho, e depois de penteada e vestida, deram-lhe belos sapatos pretos para calçar. Inconformada, perguntou pelos sapatos vermelhos e foi-lhe mostrado o fogo onde seus antigos pertences - inclusive os sapatinhos - ardiam, numa destruição sem volta.
A menina chorou a perda dos sapatos porque ela os amava. Mas a cada dia que passava, chorava mais por outras coisas: pelo fim dos dias saltitantes, das risadas altas, da cantoria despreocupada. Agora era preciso pisar leve e falar baixo, porque qualquer movimento brusco desagradava a Senhora e seus empregados. A menina vivia tentando se controlar, buscando se adequar ao papel que esperavam dela. Ela gostava das coisas bonitas que lhes davam, mas sentia falta de algo e não sabia precisar o quê.
Ao seu aproximar o dia de sua primeira comunhão e a Senhora a levou para comprar um par de sapatos novos para a ocasião. Quando chegaram ao sapateiro, logo na entrada, a menina viu um par maravilhoso de sapatos vermelhos. Eles estavam lustrados e brilhavam tanto que seu coração pareceu parar por um instante, porém ela sabia que a Senhora jamais permitiria sapatos como aquele. O sapateiro, vendo seus olhos desejosos, sugeriu inocentemente para a Senhora: "Por que não leva os sapatos da vitrine? São bonitos e estão perfeitamente lustrados. Dignos de uma moça como sua filha". A Senhora, que não enxergava bem, aceitou a sugestão de bom grado e enquanto os olhos da menina brilhavam de contentamento, os do sapateiro piscavam maliciosamente.
No dia de ir à missa, a menina calçou maravilhada os sapatos e saiu com a Senhora em sua carruagem. Quando desceu em frente à igreja, um soldado veio ao seu encontro e disse "Que belos sapatos vermelhos!" e batucou levemente neles uma musiquinha engraçada que deu cócegas nos pés da menina. A menina deu volteio e riu "Não são mesmo lindos?". Porém não conseguiu parar. Ao iniciar o passo de dança, os sapatos ganharam vida própria e sairam dançando alegremente, levando-a com eles. A Senhora, horrorizada, gritava para que ela parasse, mas era impossível deter os sapatos. Por fim, com a ajuda do cocheiro, conseguiram arrancar os sapatos da menina e a Senhora a proibiu de usá-los novamente, guardando-os no alto de uma prateleira em seu próprio quarto.
A menina, mesmo com a experiência assustadora de não poder parar de dançar, ansiava pelos sapatos vermelhos. Ele pareciam chamá-la e nada mais parecia fazer sentido se ela não pudesse calçá-los novamente, por alguns minutos que fosse. Um dia a velha Senhora caiu doente e enquanto todos se acercavam de sua cama, a menina sorrateiramente tirou os sapatos da prateleira e saiu da casa. Mal podia controlar a excitação de calça-los novamente e ao fazê-lo saiu dançando alegremente e por uma ou duas horas foi perfeitamente feliz. Mas a menina começou a ficar cansada, queria parar de dançar e voltar para casa, e ao tentar parar, percebeu que seus pés não lhe obedeciam. tentou novamente e nada. Não havia como parar de dançar. Nesse momento passou pelo Soldado de cabelos vermelhos e ele sorriu dizendo "Que belos sapatos vermelhos!" e rodopiando sem parar ela o deixou para trás. Dias e noites se passaram, a menina sentia a vida esvair-se de seu corpo por não poder alimentar-se, dormir ou beber um pouco de água; passou um dia em frente a casa da velha Senhora e percebeu que ela tinha partido desse mundo, mas nem mesmo um adeus pode dar e seguiu dançando. Um dia estava dançando em frente a uma igreja e tentou lá entrar, mas um anjo veio e lhe deu a triste notícia de sua sina: 'Noites e dias vai percorrer, essas florestas e bosques da manhã até o alvorecer, nenhum momento poderá parar, por esses sapatos amaldiçoados usar, e aqui também jamais poderá entrar, por esses sapatos amaldiçoados usar. Segue seu caminho, até que o teu destino, se cumpra completamente: perder carnes e peles, até que apenas seu esqueleto reste, dançando nesses sapatos malditos.'. A menina tentou implorar, mas os sapatos a levaram para longe dali. Já desesperada, cansada de tanto dançar e chorar, chegou a casa do carrasco da vila. Implorou a ele que a ajudasse a tirar aqueles sapatos, o que ele tentou sem sucesso. Cortou as correias, mas nada os fazia sair dos pés da menina e era preciso amarra-la para que não saisse dançando durante as tentativas. Sem mais opções, a menina implorou que ele cortasse seus pés fora, porque preferia viver aleijada do que naquela dança sem fim que a mataria sem demorar. Após muito relutar, o carrasco concordou e depois que cortou os pés da menina, os sapatos - e os pés - saíram dançando pela floresta.
A menina viveu aleijada para sempre: sem saltitar, sem cantar, sem rir. E nunca mais quis saber de sapatos vermelhos."

Temos aqui um personagem central, a menina, e alguns coadjuvantes de peso: a Senhora, o Sapateiro, o Soldado de cabelos vermelhos, o Anjo e o Carrasco. Cada um deles tem papel preponderante na história da menina, e na forma como ela passa de criança saltitante a menina aleijada. Não é um processo moral, embora muitos possam enxergar por esse lado, que a leva de um extremo a outro, mas um processo de perda da conexão interna.

Existe uma floresta, que por muitos poderia ser considerada ameaçadora, mas que é o lar da Menina. Ela busca seus alimentos, resguarda-se do frio e da chuva, brinca, e constrói sua pequena vida nesse lugar. Ali ela está integrada consigo mesma e enfrentando as dificuldades, vive feliz. Sua vida é tão plena, que ela dá a si mesma um maravilhoso presente: um par de sapatos vermelhos. Por serem feitos a mão – e com pedaços de tecido que ela vai conseguindo – eles contém o que há de mais puro em sua essência: o reconhecimento de sua capacidade e liberdade. Nesse momento, enquanto resguarda-se do mundo exterior, a Menina é como a Sacerdotisa do Tarô: seu conhecimento é inteiro sobre si mesma, aprende de fora para dentro, guarda-se dentro da floresta – da mesma forma que a Sacerdotisa guarda o essencial atrás das colunas do Templo Interior.

A Alta Sacerdotisa, The Old Path Tarot

Porém, uma armadilha surge no caminho da Menina: a carruagem dourada. É uma armadilha porque visa, primeiramente, colocar a menina numa posição inferior: a posição de necessitada. Sem conhecer o rico mundo interior da Menina, a velha Senhora somente pode ver o exterior que lhe parece pobre e carente de recursos, vê a Menina como alguém que precisa ser recuperada da uma vida selvagem e reintegrada à vida em sociedade. Iludida pelo brilho, a menina confunde conforto com felicidade e entra na carruagem dourada, esquecendo de que mesmo de ouro, uma gaiola continua sendo uma gaiola. Saindo de seu mundo, selvagem e pessoal, ela adentra o mundo social, do protocolo e da homogeneidade; dessa forma, a primeira providência é torná-la limpa, e o segundo é retirar da Menina seu mais forte laço consigo mesma: os sapatos vermelhos. Ela os havia feito, depositando neles toda sua feminilidade, alegria, vivacidade e prazer. Ao vê-los queimados, uma parte de si deixa de existir. Ela é invadida em seu espaço sagrado, mas ao invés de se rebelar ela aceita porque vê a aparência de prosperidade no local e acaba por acreditar que aquela fartura iria contagiá-la e fazê-la inteira novamente.

Um a um seus pequenos hábitos, que a tornavam tão feliz, vão sendo cortados: ela não pode pular, nem cantar, nem rir alto. Vagarosamente, hábitos novos vão lhe sendo impostos e cobrados: ir a igreja, ficar em silêncio, calçar sapatos pretos. Na necessidade de se adequar ao novo mundo à sua volta, e tentando ser aceita, ela vai permitindo que essas pequenas rupturas aconteçam. Rupturas essas que vão deixando feridas na alma da menina, fazendo dela uma Sacerdotisa sem lar, sem colunas para defender e sem a sabedoria intrínseca. Com a autoconfiança abalada, ela vai aos poucos se entregando a um modus vivendi que não lhe pertence, que lhe tolhe a liberdade e desconecta seu corpo de sua alma. A menina se cala, e em seu silêncio sacerdotal, vai colocando as sementes de frustração que farão com que ela perca o controle de si mesma ao se deparar com um novo par de sapatos vermelhos.



O Arcano 2 não é ativo, em sua essência. Ele busca um conhecimento que visa compreender o que está fora, de acordo com a percepção interna. Sendo assim, sua tendência é a de experimentar, ou seja, levar para dentro para adquirir experiência. Nada em sua simbologia denota uma capacidade de lutar contra os profanadores, mas de convertê-los ou – no máximo – afastá-los. Mas ela pode ser enganada. E enganada pela aparência da casa grande, do luxo, da comida fácil e de uma cama quente, ela se deixa enredar entre as proibições e pelos prazeres. Ela se deixa seduzir pela pretensa companhia, pela idéia de ter alguém a velar por ela e de não estar só. Ela decide experimentar essa vida, e apega-se a ela, mesmo significando uma insatisfação constante da qual nada consegue livrá-la. Caso ainda estivesse conectada a si mesma, caso ainda confiasse em seus instintos, ela perceberia rapidamente o alto preço que a sociedade estava lhe cobrando para aceitá-la em seu seio. Se estivesse atenta aos avisos de perigo no caminho, ela perceberia que o aprendizado ali era sobre o predador, e não sobre a conquista da felicidade. Porém, ela não pode mais ver, porque seus olhos internos estão cegos, não acredita mais em sua própria capacidade de cuidar de si mesma. A dor aumenta, e algo dentro da menina se quebra: o mundo externo da Sacerdotisa precisa necessariamente refletir o seu mundo interior, e quando eles entram em divergência, a unidade deixa de existir e a Sacerdotisa perde a referência: o Templo Sagrado foi violado.

Perdida em reflexões que não a fazem ver que está tentando se encaixar numa forma que não é de seu tamanho, a ira causada pela dor apenas a deixa mais vulnerável e sem armas para reconhecer novas armadilhas, fazendo com que ela caia na próxima: os falsos sapatos vermelhos.

Os primeiros – que ela mesma tinha feito – possuíam parte da sua alma e refletiam quem ela era e como se via; esses outros sapatos – feitos para atrair a cobiça – tinham em si a semente da perdição. Ao vê-los, confundiu o objeto com o sentimento, e acreditou que ter sapatos vermelhos tirariam dela a dor e fariam com que fosse novamente livre. Imersa na necessidade de ser aceita na sociedade que não a refletia, ao mesmo tempo que buscava algo que a ligasse à sua vida pregressa, ela se deixou encantar pela aparência, pela idéia de possuir qualquer coisa que a lembrasse da felicidade perdida. Porém, os novos sapatos, imbuídos que estavam de uma simbologia que a eles não pertencia, despertaram nela uma avidez desconhecida. O sapateiro, aqui uma clara representação do lobo em pele de cordeiro, percebe esse sentimento da menina e a ajuda a enganar a velha Senhora para que a Menina possa comprar os sapatos. Ele é a mão que estica o fio invisível para que a Menina tropece. A velha Senhora, que não pode ver antes que a menina não era necessitada, não pode ver agora o perigo que a rondava, e visando apenas o conforto e adequação, deixa que o perigo se acerque. A Menina por sua vez, vítima ativa nessa história, aceita a felicidade fácil e embrulhada para presente: compra os sapatos.

Criando uma miragem de felicidade, a menina calça os sapatos pela primeira vez, o soldado – personificando aqui a natureza instintiva que vem mostrar o real significado dos mecanismos de fuga – toca no sapato e a melodia faz vir a tona a verdadeira característica do objeto: retirar a vontade própria. Os sapatos tomam conta dos pés da menina e a fazem dançar descontroladamente. Horrorizada com seu comportamento impróprio, a velha senhora limita-se a retirar os sapatos à força, proibindo seu uso sob qualquer circunstância.

O tiro sai pela culatra. A Sacerdotisa – apesar de passiva como colocado anteriormente – necessita de respostas, e não de ordens. Tonta pelo sentimento de euforia dado pelos sapatos e sem compreender os motivos que da proibição, não consegue perceber que os sapatos não lhe deram a inteireza desejada e a dominaram mais que a velha Senhora, e passa a sentir aumentar a necessidade de calçá-los novamente. Vê neles aquilo que não encontra mais dentro de si – uma alegria extasiante – e não diferencia esse sentimento borbulhante, e destrutivo, do antigo sentimento de tranqüila liberdade. A Menina se deixa fascinar e aguarda o momento em que poderá experimentar tudo de novo, passando a viver para isso. Ele chega quando a velha Senhora adoece e o único obstáculo existente entre a Menina e os sapatos deixa de ter força. Aproveitando-se da fraqueza da velha Senhora, a menina pega os sapatos e corre para a liberdade. Ou melhor, para uma pretensa liberdade.



Mesmo com todo o fulgor da dança, mesmo com todas as belas paisagens que ela pode ver, nada mais está a seu alcance. Logo a menina percebe que é prisioneira de uma liberdade fictícia, que os sapatos não permitem que ela tome decisões, não a deixa aproveitar o que está lá fora e mesmo a dança passa a ser um martírio, ao passar horas e horas exaustivamente executando-a. Tornando-se uma refém dos artifícios usados para se sentir dona de seu própria espaço, a menina vê-se engolfada pelas dores de não controlar mais nenhuma de suas reações e não ter mais a opção de satisfazer qualquer necessidade, por mais básica que seja. É a Sacerdotisa presa num Templo inexistente, sem conexão consigo mesma, e incapaz de escapar dele.



Dançando sem parar, sem poder comer ou descansar, a menina segue o caminho desejado pelos sapatos. É expulsa pelo Anjo, porque a força para redimir-se seria lutar com a dominação em que se perdeu, e aceita um destino trágico considerando-se amaldiçoada. Deixando-se enredar, a menina se entrega nas mãos do Carrasco da vila, permitindo que ele corte seus pés – perdendo completamente a possibilidade de ir aonde e quando quiser – e mutila a Sacerdotisa que existe dentro de si. Antes o templo estava violado, mas a incapacidade de ação efetiva do Arcano – refletida na menina - acaba por permitir sua destruição. Estão ambas presas agora, para sempre.



Fonte: Mulheres que correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Éstes.
Imagens retiradas do filme "Sapatinhos Vermelhos", dirigido por Michael Powell, Emeric Pressburger. Roteiro de Micheael Powell (inspirado no conto de Hans Christian Andersen).