domingo, 24 de janeiro de 2010

A Torre - Rupturas e Libertações

Por Ana Marques


Há quanto tempo rejeitamos as tempestades que chegam, aparentemente, sem avisar? Há quanto tempo ignoramos os avisos que nuvens negras se acumulando no horizonte vinham trazendo? Há quanto tempo receamos ver qualquer perigo rondando nossa bem montada estrutura a ponto de nos cegarmos diante de tantas mensagens? A nossa cegueira, cada dia mais profunda, nos impede de perceber as sutis transformações que vão acontecendo ao nosso redor: raios esparsos, céu carregado, eletricidade no ar, uma ansiedade sem nome. E, aparentemente surpresos, vemos a tempestade desabar.

Não importa por qual meio procuremos nos esconder; quantas casas, sobrados, castelos, torres ou fortalezas construamos para nos proteger. Em algum momento, tudo rui ao nosso redor. Por mais que desejemos continuar nossa vida como sempre foi, somos derrubados quando nos recusamos a nos libertar sozinhos.

Em algum momento os raios e trovões mostrarão a fúria da natureza perante a nossa imutabilidade e atingirão a nossa Torre. Não importa com qual material e técnicas a tenhamos construído, ela virá abaixo.

A Torre dos Traumas

Composta de dores e mágoas, a primeira torre se mostra quase indestrutível. Repleta de lembranças, finca suas bases no passado e o resultado no presente. Dentro dela estão todos que impedem o passado de permanecer onde deveria: no passado. Dentro dela estão os inseguros, vacilantes, incapazes e indecisos. Mas nenhum desses adjetivos visa diminuí-los, mas mostrá-los tais como vêem a si mesmos: inseguros para recomeçar, vacilantes para dar novos passos, incapazes de seguir em frente e indecisos quanto à própria capacidade.

Esquecidos de observar a constante mutação da natureza à sua volta, se prendem a comportamentos padrões que visam protegê-los de qualquer mudança de atitude, e permanecem repetindo que a experiência os ensinou ou a vida os fez assim. Eximem-se da responsabilidade sobre a própria vida e aceitam resultados previsíveis apenas para não correr riscos.

Escondidas atrás das paredes de seus traumas passados e da pena daqueles que cruzam seu caminho, essas pessoas permanecem justificando o presente através de suas memórias e à custa do próprio futuro. Impedem-se de ser mais verdadeiras consigo mesmas, com suas atitudes e com o próprio caminho, vivendo no dia a dia de uma rotina cômoda e, por isso mesmo, limitante.

Existem traumas de todos os tipos e cada um deles constrói a mesma torre. Nela colocamos tudo que vivemos, como base para o que não desejamos mais e, dessa forma, justificamos atitudes, loucuras, medos e incertezas.

Não seguiremos à direita, porque quando por ela caminhamos, tropeçamos numa pedra; não amaremos ninguém porque alguém nos traiu; nos comportaremos como neuróticos medrosos porque sofremos perdas; nunca confiaremos em determinada pessoa porque um dia ela se comportou dessa forma, etc., etc., etc.

As listas de desculpas são infinitas. No entanto, não passam disso: desculpas.

Permitir que os fatos passados determinem o nosso presente e, conseqüentemente, nosso futuro, é a construção de uma torre baseada no medo, na fraqueza e no comodismo. Ela é extremamente confortável, posto que desperta a pena e a simpatia alheias. Desperta a certeza de que as pessoas compreendem sua necessidade de proteção e desejarão protegê-lo. Mas isso significará adicionar mais tijolos à já sólida construção. E, enquanto preocupam-se em assistir ao filme repetido dos sofrimentos antigos, enquanto interessam-se por continuar despertando a compreensão dos espectadores eventuais, a tempestade se aproxima...


A Torre da Espiritualidade

Um caminho de buscas e encontros espirituais. Nossos anseios são preenchidos pelos conceitos metafísicos descobertos. Um mundo de segredos, de códigos e de práticas se abre à nossa frente. Nos tornamos conscientes de que, a cada ritual praticado para modificar nosso interior, nos aproximamos mais e mais de uma transcendência que o restante da humanidade – coitada! – sequer pode sonhar. Aos poucos, esse caminho se mostra tão perfeito e nos torna pessoas tão melhores que precisamos dividi-los com os outros. Passamos então a angariar discípulos, criar associações, dar palestras e cursos. Todo nosso caminho se volta a guiar pessoas.

Algumas vezes, alguns dos que nos procuram questionam nossos métodos, caminhos, posições e posturas. Curiosamente eles colocam perguntas que parecem ser acusações veladas. Sentimo-nos injustiçados pelo tanto que os ajudamos e pelo fato que, ainda assim, eles insistem em não retribuir. Em outras vezes, amigos próximos ou pessoas que trilham caminhos semelhantes, colocam em xeque nossos posicionamentos e conselhos, argumentando não verem aplicarmos os mesmos em nossa vida. Novamente, arvorando-nos em nossos conhecimentos e estudos, colocamos inúmeros motivos pelos quais todos estão errados.

No entanto, bastaria um olhar em nossa vida para ver as ilusões que estamos nos impingindo. O que ensinamos, não colocamos em prática. O que estudamos, não conseguimos aplicar. Na aparência de “supremas autoridades” nos escudamos, para não precisarmos de justificativas. Os discípulos assistem ao espetáculo da tranqüilidade enquanto que, nos opositores ou nas pessoas próximas, descontamos nossas frustrações. Por mais que a capa da invisibilidade que desenvolvemos disfarce nossos defeitos e nossas idiossincrasias, que nos recusamos a trabalhar e integrar, esses tumores alimentados pelas células cancerosas de nossos medos continuam se multiplicando. E assim os trovões, ao longe, podem começar a ser ouvidos...


A Torre da Perfeição

Dessa torre, apenas um incômodo interior, uma sensação de vazio, de torpor diante da vida, pode detectar a existência. É quase como que um aperto constante no peito, a denunciar que algo está errado nessa vida perfeita. Exatamente por ser tão pouco visível, é uma das mais difíceis de destruir conscientemente. Quem está de fora, nos inveja pelas conquistas que tivemos: o emprego certo, o casamento certo, os filhos certos, a casa certa, o status certo. Qualquer um que nos olhe, verá apenas o que existe de bom e maravilhoso na vida que temos. Mas ninguém irá sentir (ou perceber) aquele aperto no peito que dia e noite nos incomoda.

Tenha sido por acaso ou fruto de um longo trabalho, a vida construída é admirada e faz de nós o orgulho de nossos pais. A maioria das pessoas nem entenderiam se falássemos ao discorrer sobre a busca de um sentido da vida, acreditando que não tivéssemos porquê reclamar sendo que as necessidades visíveis estão preenchidas.

No entanto, a sensação de desconforto permanece e nosso mundo perfeito parece não combinar em alguns aspectos. Mesmos que as cores e as posições pareçam corretas, algo nele desvirtua a perfeição aparente. Algo nele nos remete ao frio imenso que reina num canto escondido de nós. E, de tanto olharmos, num determinado momento a resposta nos vem, tal qual o som de um trovão: falta vida. Falta ali a nossa vida. No quadro que pintamos e mostramos ao mundo, não estamos presentes em essência. Apenas nossa máscara encara os passantes, nos olha de volta no espelho e convive com os presentes. Os relacionamentos amorosos, pessoais, profissionais, obedecem aos limites impostos por ela. Optar por permanecer mascarado, mesmo reconhecendo a insatisfação advinda disso, é aceitar a estagnação em prol do comodismo e, enquanto isso, o vento torna-se a cada momento mais violento, e o som do trovão mais forte...

A Libertação

Cai a tempestade.


Trovões ribombam de forma ensurdecedora. Ventos parecem querer nos arrancar do lugar. Receosos, desejamos nos esconder da fúria da natureza. Porém, hoje, as vítimas somos nós: nós e nossos medos, nossas fraquezas, nossos traumas, espiritualidade e perfeições. Debaixo da cama, dentro da torre construída com tanto empenho, sentimos seu tremor. Seus tijolos já não passam tanta segurança e suas estruturas parecem prestes a ruir. O temporal aumenta de intensidade. Um raio, mais forte e brilhante que os outros, corta o céu com destino certo: a nossa torre. Ele acerta o topo do nosso orgulho, dilacerando nossas defesas e nos atirando para fora da nossa zona de conforto. Caímos feito sacos de farinha no chão, indignados por sermos tão frágeis quanto, mais cedo ou mais tarde, descobrimos que somos. A chuva molha nosso rosto pela primeira vez em muito tempo. O vento castiga nossa face como há muito não fazia. O que fazer agora? Para onde ir? Sabíamos que um dia a natureza, interna e externa, iria se revoltar e nos forçar a busca de um novo caminho.

Não importa realmente como essa queda se dê. A própria estrutura dinâmica da vida não admite a permanência: viver é estar em constante mudança. Tentar ficar dentro de uma redoma, mesmo que construída com os melhores motivos (ou desculpas) possíveis, é estar contra o fluxo natural. Dentro de nossos corpos, diariamente, os órgãos se renovam. Da mesma forma, nossos atos precisam nos levar ao encontro à renovação, ao encontro a novas vidas, todos os dias.

A chuva, após a tormenta inicial, vai amainando aos poucos. Os raios cessam, os trovões já não podem ser ouvidos. Olhamos em volta e percebemos que podemos seguir para qualquer caminho, já que perdemos tudo que tínhamos. O céu permanece escuro, mas podemos pressentir a presença do sol. Ele está em algum lugar entre aquelas nuvens.

Está na hora de ir encontrá-lo.