segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O Eremita e a Roda da Fortuna



IX - O Eremita


Da luz do Eremita a nossa própria luz interior renasce, fitando seus olhos bondosos e seu semblante de quem muito viveu e muito tem a nos ensinar. O lampião ilumina seu caminho, fracamente até, se pensarmos numa noite escura sem lua, mas é o suficiente para que ele enxergue o próprio caminho e que se faça enxergar pelos outros. Suas roupas não são luxuosas, nem seu bastão é adornado, o próprio lampião é simples e poderia ser adquirido em qualquer mercado; os atributos do Eremita estão além dos olhos, é preciso enxergar sua alma para poder reconhecê-lo. Sua simplicidade é o retrato do que ele buscou: a essência. Em uma solidão auto-imposta, ele passou por um período de reconhecimento de si mesmo e de aprendizado pela observação e pelo silêncio interior. Vagarosamente, a solidão deixou de ser um martírio, para se tornar um benefício: ele aprendeu a apreciar a própria companhia.

Distanciou-se das preocupações cotidianas para que seu tempo estivesse ocupado em aprender as leis universais que rege cada um de nós. O Eremita abriu mão da vida em sociedade para que pudesse descobrir sua própria luz, longe das luzes artificiais das cidades. Seu caminho anterior encontra-se resolvido, por isso ele não sente a menor necessidade de olhar para trás e ver o que deixou. Sua escolha foi feita de forma consciente, e por isso, não existem arrependimentos. O bastão o apoia, o protege (sempre pode ser usado como uma arma) e reforça sua integração com a terra, não deixando que ele passe a se sentir acima da humanidade por causa das descobertas que fez. Suas roupas são práticas, podem protegê-lo das interpéries e ao mesmo tempo não o impedem de caminhar livremente. O lampião é a luz que ele próprio alimenta, sem que sua inteligência esteja a serviço essa luz apagaria rapidamente, e isso nos mostra uma lição: não existe luz eterna, qualquer que seja ela precisa ser alimentada conscientemente.

Seu desafio consiste em não criar falsas imagens de um Eremita e mergulhar na imitação do que não tem relevância: a aparência, as roupas, o bastão, o lampião. Vestir-se como um não efetua nenhum tipo de transformação, a luz que alimenta o lampião vem de dentro. Além disso, buscar um isolamento literal da sociedade não é imperioso, já que a mensagem é não deixar que as preocupações da sociedade impeçam que haja espaço para que floresça a essência da sabedoria. E por último, é preciso aprender a conviver com a solidão, de forma que ela não se torne sua única companheira - fazendo de si mesmo um ser arredio à companhia dos outros - ou pior ainda, que a procure como uma fuga a um feroz sentimento de inadequação em relação aos outros. Vestir capas para acobertar esses qualquer um desses problemas não os solucionará, apenas fará com que o tempo faça-os mofarem e cheirarem mal.

Utilização Prática: A vida lhe apresenta o caminho do aprendizado. Ele pode até mesmo se apresentar como as três vias da Cabalá: a aprendizagem pelos livros, depois pela orientação de um guia e por último a experiência direta da união extática com Deus. Entender essas fases, para não perder-se em preconceitos é fundamental:
1-A aprendizagem pelos livros - quando falamos de aprender a partir dos textos, em momento algum é desprezado a sabedoria interior, mas para que possamos abrir e expandir nossa mente o caminho dos livros e das experiências dos outros pode nos abrir indagações que demoraríamos um tempo muito maior para assimilar.
2- Orientação de um guia - O preconceito pode fazer com que muitos desejem pular essa parte, mas é importante esclarecer que temos "professores" ou "guias" em todo tempo de nossa vida. Podemos aprender ouvindo de um trauseunte na rua uma frase perdida que nos toque e faça brilhar uma luz em nosso interior. Conversar e trocar experiências com pessoas mais vividas e/ou mais velhas também são fontes inesgotáveis de saber, não é preciso que se aceite a experiência alheia literalmente, mas ouvi-la pode nos trazer pontos de vista não imaginados de uma situação vivida. Saber ouvir, além de discutir e filtrar o que se ouve, faz parte do processo do aprendizado que leva a sabedoria.
3- União extática com Deus - É importante não abrir mão desta última, independente da religião seguida (ou mesmo da falta dela), já que ela significa a união com o Deus interior.
A chama que precisa ser acesa, e alimentada, é a nossa centelha divina. E essa mensagem está sendo claramente apresentada em seu caminho. Enxergá-la, entendê-la e aplicá-la faz parte do processo de aprendizado que o Arcano veio lhe trazer.

X - A Roda da Fortuna

Gira o mundo e com ele a vida, analogia perfeita para a Roda da Fortuna. Quem está em cima, logo estará embaixo. O que sobe tem que descer. O poder é ilusão passageira e a sabedoria nos mostra que o destino segue inexorável para aqueles que seguem em sua vida na superfície. Um dia após o outro, tomando decisões sem conhecer as motivações interiores.

Vemos na Roda a figura de uma mulher vendada (alusão a Justiça) que retarda a subida de um homem, outro rapaz acaba de ser alçado para fora do poder e se encontra em queda enquanto um terceiro está no chão, esperando o momento em que puder escalar a roda novamente. Dessa forma, todos ali são regidos pela mulher que não os vê, são todos iguais em sua indiferença e, portanto fáceis de manipular. Completamente inconscientes, eles se preocupam apenas com o status atual. Cada um segue tal qual fantoches, sem perceber que não são livres e nem estão fazendo escolhas, apenas se deixam levar pelo fluxo da vida. O único que sorri e permanece além de todo esse sofrimento é o garotinho que se encontra acima da roda. Ele não depende de seu movimento, porque suas decisões vêm do mais profundo do seu ser. Ele não é regido, mas rege.

A Roda da Fortuna mostra as mudanças que todos passamos na vida, mas coloca-as fora de nós, onde em vez de agirmos em nosso caminho, apenas reagimos aos estímulos encontrados. É preciso mirar o garotinho fora da roda, e compreender que as mudanças tem que vir de dentro de nós para fora, de forma que não nos entreguemos a uma rotina massacrante.

O grande desafio desse Arcano é fazer as próprias mudanças, buscando a consciência em cada ato, desligando o piloto automático para que possamos verdadeiramente dirigir a nossa vida.

Utilização prática: Quando este Arcano aparecer, prepare-se para mudanças: elas vão ocorrer. Procure nessa oportunidade refletir em que ponto você buscou mudanças ou se elas vieram ao seu encontro pela entrega que fez da própria vida nas mãos do destino. Investigue as mudanças, porque elas podem abranger vários aspectos da sua vida. E aproveite também refletir como é sua reação as essas modificações, o quanto sofre pela perda da estabilidade alcançada e como lida com o novo na sua vida. É preciso mudar, para que a vida continue. E se não mudamos sozinhos, a vida muda por nós.