domingo, 8 de novembro de 2009

O Carro e A Justiça

Por Ana Marques

VII - O Carro ou A Carruagem



Neste momento, o carro nos entrega as rédeas. Para entendê-lo é preciso que nos lembremos de suas funções práticas no dia a dia e delas retiremos as lições necessárias. Notem que o auriga (ou motorista, em termos mais modernos) não é o personagem principal. A sua função é apenas conduzir o veículo, seja ele uma biga, uma bicicleta ou um carro esporte. O carro está acima da terra e abaixo do céu, ele nos coloca em contato com o meio, com o intermediário e com a distância. Nem mais estamos em contato com a Terra, e ainda não alcançamos o céu, não vemos água e o ar nem mesmo consegue refrescar nosso rosto. Estamos órfãos dos elementos exatamente para que possamos senti-los, para que possamos buscá-los, para que possamos percebe-los em nós e não apenas fora de nós.


É importante ter as rédeas do teu veículo, mas para alcançar o destino que realmente deseja, é importante saber para onde se deseja ir e por qual caminho. O grande aprendizado da viagem não é o ponto de chegada, mas a estrada em si: é ela, com seus buracos, obstáculos, surpresas e vistas maravilhosas, que mais nos ensina. Para que consigamos dirigir, precisamos mais que controlar o veículo, precisamos conhecer e controlar a nós mesmos antes que numa curva qualquer do caminho nos atiremos num precipício por puro descontrole ou descaso.
O desafio desse arcano é obter o controle, as rédeas, a direção sem nos distanciarmos de nosso objetivo. E mais que chegar a algum lugar, precisamos ter certeza que estaremos orgulhosos da forma como o fizemos.


Utilização prática: O carro nos traz a mensagem sobre objetivos e conclusões. Ele nos mostra que temos um longo caminho pela frente, antes de chegarmos a qualquer lugar. Esse caminho, repleto de surpresas, é que irá fazer a diferença quando chegarmos ao nosso destino. Importa sim quais são os meios, dizer que não é negar o próprio aprendizado da vida, posto que o objetivo conhecido de todos é a morte. Importa conhecer quem é aquele que dirige, apenas o domínio de si mesmo poderá fazer com que aquele que é dirigido (o Carro, os animais) o obedeçam. A vida lhe chama para que você aceite a responsabilidade de conduzi-la, do destino resultado da estrada que está seguindo, do aprendizado que o caminho tem a lhe mostrar. Aceitar essa responsabilidade é uma opção, mas fugir dela é deixar que o acaso tome as rédeas e isso, por si só, já é um caminho.




VIII - A Justiça



Do prato da justiça pende a balança que nos mostra como está nosso equilíbrio, nossa capacidade de ser imparcial diante das questões da vida: da nossa vida. O velho conceito de que a justiça é cega pode nos iludir a todos se o entendermos da forma literal, mas na realidade fechar os olhos físicos é abrir os olhos interiores: nem sempre os fatos mostram a realidade em toda sua abrangência; muitas vezes eles conseguem apenas nos fornecer os ângulos incompletos de um problema. O mesmo fato observado por várias pessoas terá descrições diferentes, às vezes até opostas. Exatamente por isso, é preciso que nos concentremos no que nos diz respeito, sem tentarmos posar de juízes dos outros, quando as visões que temos dos problemas alheios não conseguem incluir as suas experiências.


A deusa sentada ao trono tem a espada de fio duplo levantada. Esta espada mostra claramente que a busca pela justiça é uma luta, muitas vezes uma luta mental - posto que a espada é, normalmente, associada ao elemento AR - mas além de tudo, por cortar de ambos os lados, simbolizando que toda questão é ambivalente. A ética interior é o princípio que conta no momento da escolha, na hora de verificar qual dos lados pesará mais.


É preciso que uma visão aguçada, que vá além daquilo que desejamos ver, seja desenvolvida. A coruja traz em sua figura tanto a sabedoria, como a visão. Durante a noite, quando "todos os gatos são pardos" ela pode enxergar claramente e, dessa forma, caçar a sua presa. Se, como ela, conseguirmos ver além das sombras enganadoras da obscuridade, podemos trazer nosso objetivo até nós: um objetivo real e não algo que apenas se pareça com ele.


O desafio da justiça é ser imparcial em seus julgamentos. Deixar-se levar pelos desejos e paixões interiores de forma desenfreada, sem colocá-los em suas devidas proporções, é entregar as escolhas ao acaso, algo como: "se eu der sorte, isso vai funcionar", completamente desprovido de lógica. É importante olhar para dentro, e utilizar a força interior para que suas escolhas sejam conscientes e não apenas impulsos vazios.


Todo esse desenvolvimento visa desenvolver uma ética interior, mas que - seja bem frisado - só valerá para nós mesmos. Utilizar essa ética para julgar os outros é um exercício de egocentrismo, onde defendemos que nossa visão é a melhor e mais correta para todos, sem perceber que ela é limitada ao nosso mundo (criação, meio, cultura, herança) e que não temos alcance para compreender o mundo alheio. Por isso, o desafio também é composto de humildade para que possamos entender que o poder do julgamento é nosso, para nosso uso pessoal.


Utilização prática: A vida lhe apresenta as ferramentas para que se conscientize de como chegar a uma decisão justa e ponderada, que vale apenas para você. Ela o prepara para a luta que cada um de nós enseja quando estamos dispostos a defender nossa integridade pessoal e ética do mundo que tenta nos moldar a padrões pré-estabelecidos. Você tem a sua disposição a sabedoria interior, que é encontrada no silêncio, e o conhecimento de onde deseja chegar. É preciso levantar a espada, segurando-a firmemente, mesmo que não se tenha a intenção de usá-la até que seja necessário. A firmeza é exigida para que todo o teu mundo exterior aceite e se molde aquele que o comanda: você.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O Hierofante e Os Enamorados

Por Ana Marques

V - O Hierofante

Existe um poder que se encontra por trás do poder. Existe uma força que direciona todas as forças. Esse poder, essa força, esse guia transfigura-se em nosso HIEROFANTE. Suas mãos doam e recebem, a energia que o circunda transpassa os canais sutis da consciência e se deposita diretamente em
nosso inconsciente.

Todos buscamos quem nos oriente, mesmo que neguemos esse papel a um único ser. Numa frase perdida do jornal ou na boca de um desconhecido na rua, ouvimos verdades inerentes ao nosso interior e que nos fazem repensar conceitos que considerávamos reais. Veja: eis o Hierofante se fazendo presente. A importância de sua figura está no que ele faz sem que possamos perceber sua influência. Ele é aquele que nos faz perceber detalhes que passavam despercebidos, que nos dá bons conselhos, que nos coloca diante do que aprendemos.

Possui quatro aspectos principais: o mártir (que ensina pelo exemplo e pela dor), o dogmático (que guia - e se guia - pelas leis aprendidas, pela tradição e busca converter pela fé), o manipulador (que mostra mas não ensina o conhecimento, de forma que torne as pessoas dependentes de sua sabedoria) e por último o Iniciador (que inicia a pessoa, de forma que ela adquire o conhecimento conforme fica preparada). Seu desafio consiste em não se deixar cegar por esse papel, tentando decidir o que cada um pode ter conhecimento e enganando-se no papel de "o mais sábio". Estudo não traz sabedoria a ninguém, apenas a vivência o faz. Podemos passar a vida acumulando teoria sem jamais vislumbrarmos a essência. É vazio o conhecimento dado por estantes e mais estantes de livros, se estiverem separados da vida cotidiana. Nos escondermos atrás de 'cientificismos'
inócuos apenas nos tornará teóricos embolorados, conforme o tempo for passando. Em qualquer lugar, precisamos ter consciência e visão do outro, enxergá-lo significa não menosprezá-lo. Quando menos esperamos, as pessoas nos surpreendem. Permitam a surpresa.

Utilização Prática: Quando este arcano aparecer, permita que frases soltas, provérbios, músicas te guiem para um novo rumo na consciência. Deixe que a mensagem vá além da superfície e aceite que as menores coisas podem ter efeitos poderosos sobre o interior. As vezes, encontramos guias porque estamos prontos a mudar nosso ponto de consciência atual, e esse guia tem tarefa importante para ajudar com que enxerguemos nuances que passam despercebidas. Estamos prontos para ver, falta o empurrãozinho. Não deixe o preconceito contra a palavra "mestre" te prive deste contato. Só é dominado aquele que se deixa dominar. Lembrando-se disso se entregue às lições e estude-as detalhadamente, esse período mostra que muito conhecimento será adquirido e exigido, por isso prepare-se: o que a vida nos dá, ela cobra uso posteriormente.

VI - O Enamorado

Nesse momento vemos a indecisão que se afigura a nossa frente. O que somos e o que seremos nos puxam pelos braços sem que consigamos reagir. Existe uma pressão imensa para que possamos nos decidir: de um lado tudo que sempre conhecemos, nossos sonhos e medos de criança; do outro um mundo novo e inexplorado de sentidos e sentimentos. Que caminho escolher? A liberdade nos traz como responsabilidade o livre arbítrio, e as consequências. Ser livre, mais do que fazer exatamente o que se quer, prediz que precisamos saber o que queremos e como chegar onde queremos.

Para sermos livres, é preciso entender onde termina a influência da família e começa a da sociedade. Não basta também estarmos fora da sociedade, dizermos que nos apartamos dela, porque o processo pode ter emperrado exatamente nesse ponto: quando decidimos ir contra tudo que nos pregaram, sem perceber que isso também nos escraviza, a verdadeira liberdade dá voz àquilo que queremos cantar e não apenas a rebeldia.

Ser rebelde é estar preso ao que nos ensinaram. Ser livre é, antes de tudo, conhecer a si mesmo para poder decidir o que se quer: é um processo de vida inteira. O rapaz ao lado, entre as duas mulheres, ainda está inconsciente. Nem mesmo percebe seus instintos sendo aguçados pelo cupido que se prepara para flechá-lo colocando-o nas mãos do acaso. Atiçado pelo menino alado, o herói pode decidir com os hormônios, em vez de fazê-lo com o interior. Ao mesmo tempo, ele pode perceber a manipulação que está vivendo e buscar um caminho alternativo, nem o da mãe ou o da namorada, mas um que pertença a ele mesmo.

Um em que ele passe a tornar-se consciente de quem é, do que quer e de como deseja chegar lá. Apenas dessa forma, o sentido da liberdade torna-se real e nosso herói poderá enxergar todos os ângulos da questão.

Utilização Prática: Vai decidir? Decida-se de forma consciente. Quer consciência? Busque-a. O movimento que nos leva a nós mesmos pode levar a vida toda. É a forma real de termos algo parecido ao livre arbítrio. Então o momento é de consciência e meditação nas decisões. Procure enxergar quem decide por você: os valores familiares, a sociedade, o acaso. Procure enxergar em cada decisão (por menor que seja) uma oportunidade para exercer o autoconhecimento. Perceba que entregar a vida nas mãos de um suposto destino é ser conivente com ele, e portanto responsável por cada conseqüência. É aceitar que vai receber a colheita da semente que não escolheu, mas plantou porque era o que estava a mão. Busque as próprias sementes, e plante o que deseja colher. Seja responsável por suas atitudes e pelas consequências que advirem delas.