sexta-feira, 21 de agosto de 2009

A Arte e o Tarô

Por Zoe de Camaris

Navegando pela rede encontrei uma quantidade significativa de sites sobre o tarô, com opções bem variada de links. Alguns, muito interessantes, oferecem novidades e nos colocam em contato com os mais recentes e inovadores conjuntos de cartas da atualidade. Os clássicos também estão presentes. Temos o Visconti-Sforza, belíssimo tarô do século XV, originalmente pintado a mão, passando pelo tradicional conjunto marselhês e pela profusão de interpretações recebidas do século XIX e do XX, alguns com grande interferência criativa do autor na simbologia tradicional dos arcanos. É deslumbrante a parte gráfica do tarôs que estão ao nosso alcance.
(O Mago do Adrian Tarot, de Adrian Koehli)

Tarôs com griffe de artistas internacionais e recriações divertidas como o tarô da Hello Kitty e outro inspirado no livro 'Alice' de Lewis Carrol. Ilustradores de HQ do porte de Dave MacKean que arrasou usando o tarô de Crowley no Asilo Arkham e agora criou seu o seu próprio tarô, o genial conjunto Carvin Rine Hart Tarot, em técnica mista. Uma grande quantidade de tarôs de inspiração wiccan, alguns de linha céltica, outros xamânicos; as mais diferentes tradições, as mais diversas possibilidades de interpretações.

Quanto ao conteúdo dos sites, não vi muita coisa de novo por onde passei (- aceito sugestões!!!). Propaganda de tarólogos, aqueles textos básicos e muitas vezes desatualizados sobre a origem do tarô, o significado simplificado dos arcanos, venda de apostilas e a possibilidade de perscrutar o futuro quando se está on-line. Também encontrei algumas listas de discussão no egroups.

Ok, isso não é novidade nenhuma para quem se interessa realmente sobre a arte dos Arcanos e está na rede. Mas me leva a refletir sobre uma questão que há muito tempo me chama a atenção.

Mesmo com essa quantidade de representações gráficas, me parece ninguém propõe uma interação do tarô com outros sistemas de imagens, nem na rede e nem fora dela. Isso me leva a questionar a maneira como o tarô é divulgado, a aplicabilidade do resultado do seu ensino, levando em conta a profusão de cursos que temos por aí. Percebo que a maior dificuldade de quem se interessa pelo jogo é compreender a sintaxe das lâminas, sem a qual é quase impossível lê-las com alguma precisão. Sem dúvida, grande parte do quem vem sendo veiculado tem como ponto principal o caráter adivinhatório das cartas ou então uma 'salada de maionese esotérica' que mais confunde do que esclarece.

Ao meu ver, é de fundamental importância a relação dos arcanos com a vida, com o cotidiano, com o cinema, com a literatura, com a mitologia. De nada adianta termos esses conjuntos de cartas tão ricamente ilustrados se não mudarmos a abordagem que vem sendo dada à transmissão dos significados contido nas lâminas e das suas seqüências.
O tarô é um conjunto de imagens que pode ser aplicado na compreensão de universos distintos do seu, principalmente no entendimento dos universos ficcionais. Como é um código imagético secular, no qual identificam-se figuras interagindo com cenas que representam situações existenciais, essas mesmas situações podem ser encontradas no enredo de um romance, num poema ou numa peça de teatro. A arte imita a vida. E a prática tarológica ganha quando trabalhada a partir de uma abordagem reflexiva e aplicada, pois passa a propor um jogo aberto em que o reconhecimento dos modelos que estão presentes em um dado momento na vida daquele que o consulta, são nomeados. Criar relações entre o tarô e outros sistemas imagéticos é uma porta aberta para novos insights. E aqui não me refiro as correspondências astrológicas e cabalísticas que fazem parte (ou pelo menos, deveriam fazer) do conhecimento avançado daquele que já identificou a ocorrência das suas figuras e seus conteúdos na vida, na arte, no cotidiano; primeiros passos, ao meu ver, para o seu entendimento.

Na adivinhação, o vaticínio segue muitas vezes o exemplo da Pítia de Delfos em que várias interpretações são possíveis e, salvo raros casos de verdadeira vidência, descambam-se para o engano e para a manipulação. O conhecimento esotérico depende muito da linha de conhecimento ao qual o estudante do tarô vai se ater. Sabemos que não são poucas as linhas esotéricas, o que acaba confundindo o neófito num mar de correspondências.

Outra possibilidade é a prática auto-reflexiva que encontra na psicologia a sua maior aliada. Sem querer tira os méritos do método, já que a máxima "conhece-te a ti mesmo" continua sendo pontual, acredito que certas vivências acabam por distanciar aquele que estuda do conteúdo das cartas, propondo um mergulho em um universo estritamente pessoal e servindo mais como gancho terapêutico do que qualquer outra coisa.

Ao meu ver, o estudo do tarô ganharia muito se fosse feita uma ponte dos arcanos com as manifestações artísticas. E aí temos um vasto material de apoio, já que a nossa vida é feita de imagens e histórias que inspiram a criação a literária, as artes plásticas, o cinema.

Para entender o tarô é preciso viajar no mundo de significados propostos por suas figuras. Entrar nessa galeria de personagens como quem sonha, inserir-se em seu mundo em um exercício de alteridade, reclamar para si o seu entendimento. Perceber as figuras do tarô no cotidiano, no mendigo que passa na rua seguido de um cachorro, no confronto com uma mulher autoritária como a Imperatriz, no momento de escolha entre um e outro caminho. Identificar seus signos na vida, como faziam os surrealistas. Vestir sua indumentária e adivinhar-lhes os movimentos, holografar seus próximos gestos, preencher com cores figuras em preto e branco. E para isso, não precisamos de muita coisa. Basta a observação atenta e, quem sabe, uma caixa de lápis de cor. O tarô é arte. E arte é vida e cotidiano.

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