sábado, 22 de agosto de 2009

Tarô - Uma galeria de Imagens

Por Zoe de Camaris

É importante que alguns esclarecimentos sejam feitos no que se refere à abordagem que hoje é dada ao tarô, estigmatizado pelo "boom" esotérico do final desse século. Curiosamente, pode observar-se esse mesmo movimento no final do século XIX, quando uma enxurrada de ordens herméticas e especulações de cunho místico assolou, principalmente, a Europa. As passagens de século carregam em si um medo atávico do fim dos tempos e esse processo se intensifica agora, na virada do milênio, o que acaba por colocar em evidência, de uma maneira bastante simplificada, certos sistemas esotéricos muito antigos e complexos. A mídia não perde tempo em divulgar fórmulas fáceis e o marketing "esotérico" vibra com generalizações que atendem a uma grande demanda de mercado. E aqui encontra-se o tarô, nosso ilustre desconhecido apesar da sua popularidade; desconhecido, muito mais pelo preconceito que o rodeia do que por um possível conteúdo de difícil compreensão.
A imediata associação do tarô com a cartomancia - não se pensa em um sem o outro - e com charlatães vestidos de rosa e dourado, o coloca em uma espécie de "limbo" nos meios acadêmicos e científicos. Enquanto não existir um trabalho de validação do tarô como um sistema de pensamento plausível de ser aplicado em diversas áreas do conhecimento, o preconceito que ronda a sua aplicação nos estudos superiores não cessará de existir.

O que não se percebe, por esses motivos, é que antes de ser um "método divinatório", existe no tarô uma riqueza de usos e possibilidades que em muito supera o seu uso indiscriminado. Livro de imagens híbridas, formado por um grande leque de influências na moldagem do seu simbolismo, esse secular sistema mnemônico apresenta, na sua forma tradicional, uma iconografia nitidamente medieval, misturada a símbolos cristãos e que, pela sua ordenação numérica e pelo significado de suas figuras, se prestam a leituras sintagmática e paradigmática, nos moldes da lingüística estrutural e uma leitura semiótica, segundo o legado de Pierce e a sua classificação dos signos. Na Literatura observamos uma ocorrência freqüente do seu simbolismo, de modo mais ou menos cifrado, como em T.S. Eliot1 em que as recorrentes alusões ao tarô só são percebidas por olhares treinados, exceção feita a Seção I do poema Waste Land em que as referências às imagens são claras e o poeta recorre a uma abordagem tipicamente divinatória:

Madame Sosostris, célebre vidente,
Contraiu incurável resfriado; ainda assim,
É conhecida como a mulher mais sábia da Europa,
Com seu trêfego baralho. Esta aqui, disse ela,
É tua carta, a do Marinheiro Fenício Afogado.
(Estas são as pérolas que foram seus olhos. Olha!)
Eis aqui Beladona, a Madona dos Rochedos,
A Senhora das Situações.
Aqui está o homem dos três bastões, e aqui a roda da Fortuna,
E aqui se vê o mercador zarolho, e esta carta,
Que em branco vês, é algo que ele às costas leva,
Mas que a mim proibiram-me de ver. Não acho O Enforcado. Receia morte por água.
Vejo multidões que em círculos perambulam.
Obrigada. Se encontrares, querido, a Senhora Equitone,
Diz-lhe que eu mesma lhe entrego o horóscopo:
Todo cuidado é pouco nestes dias.

Nas notas sobre A terra desolada2 o próprio autor afirma ter escolhido determinadas imagens por associarem-se com outras do seu repertório. O ENFORCADO do tarô com o Deus Enforcado de sir James George Frazer em O Ramo Dourado (The Golden Bought) que por sua vez é relacionado à personagem encapuzada da passagem dos discípulos de Emaús, na Seção V do mesmo poema.

Na prosa fantástica de Italo Calvino, o tarô encontra uma abordagem que põe em evidência as suas possibilidades combinatórias. O tarô é também um jogo, e disso se vale o autor em O Castelo dos destinos cruzados3. O livro se divide em duas partes: na primeira, O CASTELO DOS DESTINOS CRUZADOS, Calvino utiliza as lâminas pintadas por Bonifácio Bembo para os Duques de Milão e na segunda, A TAVERNA DOS DESTINOS CRUZADOS, o tarô de Marselha. Trata-se de um grupo de comensais, vindos das mais diversas partes do mundo e que, misteriosamente, perdendo a voz, lançam mão do tarô para relatar cada um a sua história, a princípio muda em palavras mas que, pela eloquência das imagens, torna-se perfeitamente compreensível. As narrativas se entrelaçam, e com elas Calvino propõe um jogo entre os arcanos, uma espécie de palavras cruzadas imagística, obedecendo uma ordem sintagmática e paradigmática no conjunto das histórias e montando um quadro em que as cartas mapeiam o desenrolar da trama e o desempenho de seus personagens4.

Comecei pelos tarôs de Marselha, procurando colocar as cartas de modo que se apresentassem como cenas sucessivas de um conto pictográfico. Quanto as cartas enfileiradas ao acaso me davam uma história na qual reconhecia o sentido, punha-me logo a escrevê-la; acumulei assim um vasto material; posso dizer que cada parte da Taverna dos destinos cruzados foi escrita nessa fase; mas não conseguia dispor as cartas numa ordem que contivesse a pluralidade dos contos; mudava constantemente as regras do jogo, a estrutura geral, as soluções narrativas.

Contemporaneamente, Gertrude Moakley, citada por Sallie Nichols em Jung e o tarô5 corrobora as investigações de Gérard van Rijneberg em Le Tarot; histoire, iconographie, esotérisme, afirmando ser o tarô de origem exotérica ( verbete grafado com um "x", para indicar o que é de conhecimento de muitos, ao contrário de esotérico, conhecimento ao alcance de poucos). No livro de sonetos de Petrarca I Trionfi, que tanto pode traduzir-se por triunfos quanto por trunfos, cada uma de uma série de personagens alegóricos combate e vence o seu predecessor. Esses sonetos dedicados à Laura traziam ilustrações dais quais o tarô seria uma mera adaptação.
A propensão em utilizar a ordenação do tarô para dividir um livro em capítulos, faz-se notar em Frederik Hetmann no livro Madru, a lenda da grande floresta6 e em Jostein Gaarder em O dia do Curinga7. Este, utilizando as cartas do baralho comum, divide o livro em quatro partes correspondendo aos quatro naipes, que por sua vez se subdividem nas cartas numeradas de ás a 10, mais as cartas reais.
Da vasta fortuna literária que o tarô de Marselha recebeu do surrealismo em diante, cabe citar O Arcano 17 de André Breton8 e Os arcanos da poesia surrealista9, uma seleção organizada por José Pierre e Jean Schuster que dividem a coletânea em 22 escritores relacionados ao movimento, mantendo uma certa arbitrariedade entre o conteúdo do texto e o significado dos arcanos. Outra informação valiosa acerca do tarô no imaginário surrealista diz respeito a uma exposição realizada em 1947 encabeçada por Breton e Marcel Duchamp na Galeria Maeght em Paris. A configuração geral dos temas da exposição foi estruturada de maneira a lembrar os estágios sucessivos de uma iniciação. O primeiro estágio do processo começava quando o visitante subia uma escada de vinte e um degraus. De acordo com o catálogo da exposição, esses degraus eram moldados como as lombadas de livros inscritos com 21 títulos correspondendo aos 21 arcanos maiores do tarô. Possivelmente, a vigésima segunda lâmina, O LOUCO, estaria representada pelo próprio visitante.
Nos estudos antropológicos, as categorias expressas pelos arcanos menores merecem o destaque de Gilbert Durand, em As Estruturas antropológicas do imaginário; introdução à arquetipologia geral10 , como pontos cardeais do espaço arquetipológico. O estudo de Durand se fundamenta em uma bipartição entre os dois Regimes do simbolismo, um diurno e outro noturno, nos quais são agrupados, segundo o método da convergência, as grandes constelações simbólicas.
Uma outra possibilidade de estudo é aberta quando se pensa sobre a possibilidade de que a Igreja tenha usado imagens similares às cartas do tarô nas representações artísticas, mais especificamente, no barroco mineiro dos séculos XVIII e XIX. Segundo uma entrevista concedida pelo professor João Adolfo Hansen, o tarô.
(...) combina elementos que vêm de uma longa tradição que poderia servir de referência a uma representação sagrada, já que o signo é uma possibilidade semiótica que pode ser deslocada e semantizada no uso particular. O contexto de ocorrência do uso determina essa semantização. O fato de se encontrar um elemento do tarô dentro de uma tela de tema sacro, que está enquadrado dentro do espaço sagrado, dentro de uma Igreja de uma determinada ordem, o próprio contexto de ocorrência do objeto é como que contaminado pelo em torno, estabelecendo uma relação sintática com o resto que o semantiza catolicamente, ainda que ele tenha uma referência não católica.11
Esses poucos exemplos são necessários nesta justificativa para demonstrar que o tarô ultrapassa o que dele é popularmente conhecido e pode funcionar como um sistema lógico de linguagem, ordenado pela relação que se cria entre suas figuras e propondo uma dinâmica própria, aplicável a outros universos.
Se o tarô no Brasil ainda é visto como um simples método de leitura da sorte, em diversos países europeus as figuras emblemáticas que o constituem são objeto de estudos iconográficos e iconológicos e motivos largamente usados na criação literária e cinematográfica.

1 - ELIOT, T.S. Poesia. 1991 p. 90-91.
2 - ELIOT, T.S. Op.cit. 1991 p. 90-91.
3 - CALVINO, Italo. O Castelo dos destinos cruzados. 1997.
4 - CALVINO, Italo. Nota explicativa.In: Op.cit. p. 153.
5 - NICHOLS, Sallie. Jung e o tarô. 1989. p 20.
6 - HETMANN, Frederik. Madru; a lenda da grande floresta. 1983.
7 - GAARDER, Jostein. O Dia do curinga., 1996.
8 - BRETON, André. Arcano 17, 1988.
9 - PIERRE , José, SCHUSTER , Jean. (org.) Os Arcanos da poesia surrealista, 1988.
10 - DURAND, Gilbert. As Estruturas antropológicas do imaginário; introdução à arquetipologia geral. 1997.
11 - HANSEN, João Adolfo. Entrevista concedida à Monica Berger. Ouro Preto, 1998.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

A Arte e o Tarô

Por Zoe de Camaris

Navegando pela rede encontrei uma quantidade significativa de sites sobre o tarô, com opções bem variada de links. Alguns, muito interessantes, oferecem novidades e nos colocam em contato com os mais recentes e inovadores conjuntos de cartas da atualidade. Os clássicos também estão presentes. Temos o Visconti-Sforza, belíssimo tarô do século XV, originalmente pintado a mão, passando pelo tradicional conjunto marselhês e pela profusão de interpretações recebidas do século XIX e do XX, alguns com grande interferência criativa do autor na simbologia tradicional dos arcanos. É deslumbrante a parte gráfica do tarôs que estão ao nosso alcance.
(O Mago do Adrian Tarot, de Adrian Koehli)

Tarôs com griffe de artistas internacionais e recriações divertidas como o tarô da Hello Kitty e outro inspirado no livro 'Alice' de Lewis Carrol. Ilustradores de HQ do porte de Dave MacKean que arrasou usando o tarô de Crowley no Asilo Arkham e agora criou seu o seu próprio tarô, o genial conjunto Carvin Rine Hart Tarot, em técnica mista. Uma grande quantidade de tarôs de inspiração wiccan, alguns de linha céltica, outros xamânicos; as mais diferentes tradições, as mais diversas possibilidades de interpretações.

Quanto ao conteúdo dos sites, não vi muita coisa de novo por onde passei (- aceito sugestões!!!). Propaganda de tarólogos, aqueles textos básicos e muitas vezes desatualizados sobre a origem do tarô, o significado simplificado dos arcanos, venda de apostilas e a possibilidade de perscrutar o futuro quando se está on-line. Também encontrei algumas listas de discussão no egroups.

Ok, isso não é novidade nenhuma para quem se interessa realmente sobre a arte dos Arcanos e está na rede. Mas me leva a refletir sobre uma questão que há muito tempo me chama a atenção.

Mesmo com essa quantidade de representações gráficas, me parece ninguém propõe uma interação do tarô com outros sistemas de imagens, nem na rede e nem fora dela. Isso me leva a questionar a maneira como o tarô é divulgado, a aplicabilidade do resultado do seu ensino, levando em conta a profusão de cursos que temos por aí. Percebo que a maior dificuldade de quem se interessa pelo jogo é compreender a sintaxe das lâminas, sem a qual é quase impossível lê-las com alguma precisão. Sem dúvida, grande parte do quem vem sendo veiculado tem como ponto principal o caráter adivinhatório das cartas ou então uma 'salada de maionese esotérica' que mais confunde do que esclarece.

Ao meu ver, é de fundamental importância a relação dos arcanos com a vida, com o cotidiano, com o cinema, com a literatura, com a mitologia. De nada adianta termos esses conjuntos de cartas tão ricamente ilustrados se não mudarmos a abordagem que vem sendo dada à transmissão dos significados contido nas lâminas e das suas seqüências.
O tarô é um conjunto de imagens que pode ser aplicado na compreensão de universos distintos do seu, principalmente no entendimento dos universos ficcionais. Como é um código imagético secular, no qual identificam-se figuras interagindo com cenas que representam situações existenciais, essas mesmas situações podem ser encontradas no enredo de um romance, num poema ou numa peça de teatro. A arte imita a vida. E a prática tarológica ganha quando trabalhada a partir de uma abordagem reflexiva e aplicada, pois passa a propor um jogo aberto em que o reconhecimento dos modelos que estão presentes em um dado momento na vida daquele que o consulta, são nomeados. Criar relações entre o tarô e outros sistemas imagéticos é uma porta aberta para novos insights. E aqui não me refiro as correspondências astrológicas e cabalísticas que fazem parte (ou pelo menos, deveriam fazer) do conhecimento avançado daquele que já identificou a ocorrência das suas figuras e seus conteúdos na vida, na arte, no cotidiano; primeiros passos, ao meu ver, para o seu entendimento.

Na adivinhação, o vaticínio segue muitas vezes o exemplo da Pítia de Delfos em que várias interpretações são possíveis e, salvo raros casos de verdadeira vidência, descambam-se para o engano e para a manipulação. O conhecimento esotérico depende muito da linha de conhecimento ao qual o estudante do tarô vai se ater. Sabemos que não são poucas as linhas esotéricas, o que acaba confundindo o neófito num mar de correspondências.

Outra possibilidade é a prática auto-reflexiva que encontra na psicologia a sua maior aliada. Sem querer tira os méritos do método, já que a máxima "conhece-te a ti mesmo" continua sendo pontual, acredito que certas vivências acabam por distanciar aquele que estuda do conteúdo das cartas, propondo um mergulho em um universo estritamente pessoal e servindo mais como gancho terapêutico do que qualquer outra coisa.

Ao meu ver, o estudo do tarô ganharia muito se fosse feita uma ponte dos arcanos com as manifestações artísticas. E aí temos um vasto material de apoio, já que a nossa vida é feita de imagens e histórias que inspiram a criação a literária, as artes plásticas, o cinema.

Para entender o tarô é preciso viajar no mundo de significados propostos por suas figuras. Entrar nessa galeria de personagens como quem sonha, inserir-se em seu mundo em um exercício de alteridade, reclamar para si o seu entendimento. Perceber as figuras do tarô no cotidiano, no mendigo que passa na rua seguido de um cachorro, no confronto com uma mulher autoritária como a Imperatriz, no momento de escolha entre um e outro caminho. Identificar seus signos na vida, como faziam os surrealistas. Vestir sua indumentária e adivinhar-lhes os movimentos, holografar seus próximos gestos, preencher com cores figuras em preto e branco. E para isso, não precisamos de muita coisa. Basta a observação atenta e, quem sabe, uma caixa de lápis de cor. O tarô é arte. E arte é vida e cotidiano.