quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Minha vida sem mim


Análise do filme “Minha vida sem mim” – direção e roteiro de Isabel Coixet
Por Ana Marques



Uma moça na chuva, olhos fechados, pés descalços e pensamentos que fazem um sentido tão profundo que doem:

“Esta é você.
 Nunca pensou que fosse fazer algo assim. Você nunca se viu como – não sei como descreveria – como uma dessas pessoas que gostam de olhar a lua ou que passam horas contemplando as ondas ou o pôr-do-sol. Deve saber de que tipos de pessoas estou falando.
Talvez não saiba.
Seja como for, você gosta de ficar assim: lutando contra o frio e sentindo a água penetrando na sua camisa e tocando sua pele e da sensação do chão ficando fofo debaixo dos seus pés e do cheiro. Do som da chuva batendo nas folhas e todas as coisas que estão nos livros que você não leu.
Essa é você.
Quem teria imaginado?
Você.”

Vinte e três anos e uma vida pela frente... uma vida de dois meses, talvez três. Ann descobre-se doente, e entrando em si mesma, percebe pela primeira vez de forma consciente como deixou de viver, e da mesma forma que o tumor dentro dela, como cresceu rápido demais. Trabalhando como servente a noite numa faculdade em que não pode estudar, ouvindo fitas em alemão na esperança (quase imperceptível) de poder modificar sua vida. Mas a realidade massacrante está ali: ela tem 23 anos, 2 filhas, um marido doce e infantil, uma amiga obcecada, uma mãe amarga e mora no quintal dela, num trailer.

Antes que tivesse tempo de descobrir a vida, de experimentá-la, viu-se responsável por outros e cercada de deveres. Não teve tempo para pensar, nem mesmo tempo para viver. O médico que dá a ela a notícia vive o seu próprio drama pessoal: não consegue encarar em si mesmo o paradigma que escolheu: salvar vidas significa enfrentar a inevitável morte. Ao dar o diagnóstico, o choque de Ann, as palavras duras quando ele sugere uma segunda opinião (“um outro médico que me diga o mesmo, mas olhando nos meus olhos?”) e sua saída intempestiva o fazem começar a acordar. E fazem com que ela acorde também: como poderia reverter uma vida inteira de concessões em tão pouco tempo? Como viver tudo que nem mesmo percebeu que deveria ter vivido?

Decidida a não se entregar, ela toma as rédeas da situação: não conta a ninguém para que não interfiram na forma como deseja viver esses últimos meses. E faz uma lista: tudo que quer fazer, e não fez. Tudo que pretende no tempo que resta. Tudo que, pareça bobagem ou não, importa a ela. E nessa lista, suas prioridades: dizer às filhas que as ama, achar uma nova esposa para Don de quem as filhas gostem, gravar mensagens de aniversário para as meninas até que completem dezoito anos, ir fazer um piquenique na praia, fumar e beber quanto quiser, dizer o que pensa, fazer amor com outros homens para saber como é, fazer alguém se apaixonar por ela, visitar o pai na cadeia e colocar unhas postiças e fazer algo com o cabelo. Dez desejos. Dez vontades que podem parecer egoístas, podem parecer manipuladoras, mas na verdade, mostram o espírito de extrema sabedoria que o crescimento acelerado e a morte iminente ensinam a Ann: não se pode perder tempo.

Desse momento em diante, ela começa a viver: olha as pessoas nos olhos, percebe o efêmero da vida, ensina a cada um alguma importante lição. Utilizando a sinceridade que lhe foi outorgada pela consciência da transitoriedade, diz sem papas na língua para uma garçonete que ganhar na loteria para ser igual a outra pessoa é uma estupidez, com a mesma profundidade transforma em lição uma conversa banal com uma cabeleireira que defende veementemente a dupla Mili Vanilli (para quem não sabe, dupla que foi desmascarada porque usava vozes alheias em seu CD). Ann consegue perceber tudo que é irreal no mundo, comparando-os à dupla, nota como ofertas, comidas, vitrines não passam de distração da vida, da verdadeira vida. Daquela que corre nas veias e pode acabar a qualquer momento e que nenhuma promoção de loja ou carro importado pode fazer continuar correndo. Ninguém passa em branco na vida de Ann daquele momento em diante, em vida ou em fitas, deixa lições, mostra o que aprendeu e como é importante viver. Num momento em que vomita no banheiro, acaba por colocar para fora frustrações para sua amiga Laurie (maníaca por dietas que nunca realmente começa): desde a traição de uma amiga infantil, à festa que não foi convidada, o pai que não vê há 10 anos e a necessidade de crescer de um momento para outro porque foi mãe com dezessete anos. Ela vomita a inverdade da vida, dos comerciais de felicidades perfeitas e desinfetadas, da mentira que nos faz acreditar que o que temos é tudo que podemos ter. Como ela mesma diz “não tenho mais sonhos, e sem sonhos não dá para viver”.

Em busca de uma vida que não teve e – mais sozinha que nunca - Ann encontra Lee e com ele se envolve. Uma figura desesperançada, perdida num emaranhado de sentimentos sem conexão entre si. O caso de amor entre eles é tão eterno quanto efêmero: Ann não tem tempo, mas vive tudo, e mostra a ele a beleza da vida quando a mesma é plena, quando o belo é tirado de dentro. É com ele também, num trecho de livro lido em voz alta, que fica claro o destino que teria se ela fosse lutar contra a doença incurável:

“As capacidades dela desaparecem, uma por uma... E não há noite, não há estrelas, apenas um porão do qual ela nunca pode sair... e ninguém mais pode ficar. Dão a ela remédios que a deixam doente, mas impedem que ela morra. Por algum tempo...
Eles têm medo. Eu tenho medo.”

O livro é jogado longe. Por mais que saiba, ouvir desperta nela uma revolta imediata. Por mais que esteja aprendendo, ainda é um ser humano, buscando TUDO no pouco que resta... ouvindo sobre países que não vai conhecer, planos dos quais não vai fazer parte e pensa em tudo que não poderá realizar, nas filhas que não verá crescer.

O pai é uma lição à parte: para ela e para quem vê o filme. Apesar de parecer sem sentido, ele começa falando sobre sapatos... mas quem realmente pode falar de sapatos na presença de alguém que te olha no fundo dos olhos, no mais profundo âmago das suas emoções? Comovido, ele confessa “Alguns de nós não podem levar o tipo de vida que algumas pessoas querem. Por mais que a gente tente não consegue... É difícil, sabe... amar alguém e não conseguir fazer a pessoa feliz. É como se você amasse essa pessoa, mas não conseguisse amá-la como ela deseja.”. Nesse desabafo ele a ajuda a compreender a revolta da mãe, e a ajuda-la na herança de uma das fitas: não se pode mudar ninguém, nem esperar a felicidade dos outros, é preciso busca-la, dar uma chance para a vida, dar chances a si mesmo.

Um a um Ann vai realizando seus objetivos. Depois de despedir-se de Lee, ouve dele a confissão de amor que ela desejara, a confissão que não faz (em vida). Volta para casa e vê a cena que espera, a cena da sua vida sem ela. A vizinha, a xará Ann, preparando o jantar em plena harmonia com Don e as crianças, vendo isso e perdendo as forças, ela reza: “Você reza para que essa seja sua vida sem você. Reza para que as meninas amem essa mulher... que tem o mesmo nome que você e para que seu marido também acabe  amando-a. E para que eles morem na casa ao lado... e as meninas brinquem de casinha no trailer e mal se lembrem da mãe que dormia de dia e fazia passeio de jangada com elas, na cama. Reza para que tenham momentos de felicidade tão intensa que faça todos os problemas parecerem insignificantes. Você não sabe para quem reza, mas reza. Você nem sequer lamenta a vida que não vai ter porque já estará morta e os mortos não sentem nada, e nem lamentam.”

Tudo vai clareando e mostra que a presença física de Ann não mais está ali, mas as lições que deixou começam a mostrar seus frutos: a mãe deixa de isolar-se em casa para chorar sozinha em filmes de outras mães sofredoras, Don passa de rapaz encantador a homem, a outra Ann finalmente pode dar o amor para as crianças que seus traumas a impediam de ter, Laurie vê as mentiras em si mesma e é mostrada comendo cenouras, o médico (responsável pela entrega das fitas), começa a organiza-las e a enfrentar aquilo de que tanto tinha fugido. Por último Lee, o que estava perdido e desacreditado do mundo, aparece sorrindo: lembrando dela e da fita que recebera. Ele recomeça a caminhar, porque viveu uma vida inteira em um mês e percebe finalmente que pode viver quantas quiser ainda.

Os Arcanos:

O Grande Arcano do filme é a Morte que, através de Ann e das atitudes que ela toma ao perceber a fragilidade da vida, transforma cada um dos personagens. Não existem coadjuvantes aqui, todos são estrelas de peças dramáticas: a inconsciência de si mesmo, a fuga do próprio eu, a auto-sabotagem. Podemos encontrar vários Arcanos no decorrer do filme e em cada um dos personagens existe sempre um que está exaltado.

Personagens:

Ann => ela é a própria Morte, que se transforma e transforma os outros à sua volta.

Lee => O Louco, nada tem dentro de casa, além de livros (possuir o essencial), mas anda sem direção e sem rumo, não sabe aonde ir e nem se quer chegar. Cruzar o caminho com Ann e viver a paixão com ela reacende a chama da vida em seu interior: ele volta a caminhar, vai em busca de si, de sua jornada pessoal.

Mãe de Ann => O Enforcado, ou o que chamaríamos de matter dolorosa, aquela que por não ver seus sonhos realizados, coloca a culpa em todos e se frustra fechando-se em si mesma e vivendo para uma realidade de sacrifícios e insatisfações.

Outra Ann => A Sacerdotisa, que possui conhecimento e amor, mas não se dispõe a dá-los. No caso dela, devido ao trauma de ter visto a vida esvair-se em seus braços. A morte de Ann, e o cuidado com as meninas dela, a transformam na Imperatriz: a mulher realizada.

Don => O Mago, encantador, doce, porém ilusório. Vive procurando emprego, vive arrumando empreguinhos, vive desejando dar uma vida melhor a todos... deseja, mas não possui conhecimento e maturidade para consegui-lo. Tocado pela responsabilidade real das filhas, ele cresce finalmente, e assume seu papel de Imperador.

Cabeleireira => O Mago, vende a ilusão da beleza, vive a ilusão de Milli Vanilli, e através de sua superficialidade, ensina a Ann  lições que os demais puderam aproveitar. Ela continua vivendo, continua enganando... ou talvez, ela apenas quisesse ser o Mago mesmo, e nada mais.

Laurie => A Lua, inconsciente dos próprios problemas, enganando-se quanto a uma dieta que nunca faz e a um cigarro que nunca larga, finge que conta calorias mas come o tempo todo e esconde isso de si mesma. Com a partida brusca de Ann, cai em si o círculo vicioso em que estava afundada, como suas manias não passavam de desculpas vazias para o que ela não pretendia fazer. Sem bombons e sem fugas, o filme a mostra comendo cenouras. Talvez agora ela ultrapasse o caminho, e chegue ao próximo Arcano: o Sol.

Pai Ann => O Mago, o que tenta, mas não consegue iludir por muito tempo. O que admite a própria incapacidade de ir além dos truques que conhece. Ele está preso: mais em si mesmo, e nas suas limitações, do que na prisão propriamente dita.

Médico => O Hierofante completamente paradoxal: possui o conhecimento e o dever, não pode delegar para outro a tarefa que a ele compete, mas... é incapaz de dizer o que deve ser dito olhando nos olhos. Ele foge da realidade escolhida, fixando seus olhos nos papéis e nas frases prontas. É preciso que o toque brusco de Ann o acorde, é preciso que o pedido que faz a ele o surpreenda para que reavalie sua posição. A coragem de Ann diante da própria morte, torna mais clara sua covardia. Percebendo isso, e aceitando a tarefa que ela lhe pede, começa sua própria transformação.

Cenas:

Cena 1 – Chuva – Arcano: O Sol
Nessa cena, de beleza surreal, Ann toma consciência de si mesma, percebe quem é e o que sente.

Cena 2 – Na universidade – Arcano: A Roda
Presa num destino do qual nem percebe a existência, ouve fitas de alemão, mas sem que se tenha objetivo algum. Limpa a faculdade, em que não vai estudar. Ri, mas sua vida é mecânica: trabalhar, buscar a mãe, dormir, acordar, cuidar da casa, etc., etc., etc.

Cena 3 – Mãe de Ann reclamando – Arcano: O Enforcado
Nada é bom, não gosta das fitas em alemão, pergunta por Don que sempre está procurando um novo emprego, diz que Ann deveria ouvir música como pessoas normais. “Mãe, ninguém é normal”.

Cena 4 – Com Don – Arcano: O Mago
Ilusão da vida, ilusão de amor, ilusão de carinho e algo maior. É a ilusão dele que a mantém na dela. A imaturidade dele que faz com que ela sempre aja no controle, mas que dá um pouco de falsa poesia ao seu dia e às suas noites.

Cena 5 – Desmaio, Hospital e a Doença – Arcano: A Torre
O mundo desaba: não há mais tempo, não há mais vida a ser perdida. A consciência de que as bases em que construiu suas crenças, de ter uma vida inteira pela frente, caem por terra. Ruína e queda, possibilitando que ela veja a vida como realmente é, que veja a si mesma como realmente é.

Cena 6 -  Cena com marido e as filhas – Arcano: O Mago
É a sua vez, ela os ilude. Mente que tem anemia, e ninguém a questiona. Ninguém enxerga o suficiente para perceber quão mais grave era seu quadro: quem realmente ali a conhecia de verdade? Ela simplesmente aproveita a ilusão coletiva para viver da melhor forma o tempo que tiver.

Cena 7 – Repensar a vida e escrever os desejos – Arcano: A Temperança
Após a morte ter tocado sua vida, a mudança interior é inevitável: pela primeira vez em muito tempo, Ann pensa sobre si e sua vida, e começa a rever tudo que não fez. Assim escreve seus desejos e dizendo o que pensa, é notada por Lee.

Cena 8 – Café da manhã com as filhas – Arcano: A Imperatriz
Nutrir enquanto pode, trazer a felicidade e viver o máximo. A alegria transparece de tal forma que a filha mais velha acha que é domingo ou aniversário.

Cena 9 – Cabeleireira – Arcano: O Hierofante (manipulador)
Apesar de sem sucesso, a cabeleireira quer impor seu gosto pessoal a Ann, tentando convence-la a fazer tranças. Todo o ambiente traduz superficialidade, e ali Ann está buscando uma transformação externa, porque a interna já começou.

Cena 10 – Mãe reclamando novamente – Arcano: O Enforcado
Mãe reclamando de dores, dos bolos que precisou fazer, da dor nos quadris, da chuva, da neve, reclama enfim...

Cena 11 – Saindo para o Bar e Lavanderia – Arcano: O Louco
Ela sai deixando todos dormindo e um bilhete que vai a lavanderia. Encontra a cabeleireira que lhe fala sobre Milli Vanilli e a injustiça que associa a eles. Desencantada com o bar, vai a lavanderia e lá encontra Lee novamente. É o começo da realização de dois de seus desejos.

Cena 12 – Caminhando Sozinha – Arcano: O Eremita
Ela caminha, e percebe como todo o consumismo nos afasta da idéia da morte. Percebe Milli Vanilli por toda parte: vidas, vozes, sonhos emprestados. Nada é real. Nada é como parece ser. Vê o que não pode comprar, o que não deseja mais comprar porque não tem importância alguma. Ela vê claramente, porque sua luz interior acendeu, e agora pode enxergar de dentro para fora.

Cena 13 – Briga com a mãe – Arcano: O Diabo
Sombras vindo a tona: histórias da mãe sofredora para as netas, a mãe de Ann que a acusa de ser parecida com o pai, Ann que se diz parecida com a mãe e de não gostar nada disso. O Diabo aqui funcionando como catalisador de feridas mal curadas. Briga com a filha mais velha, Penny. Reconhecimento da infantilidade do marido (que chega querendo beijos mas bebeu além da conta) e da necessidade de sair dali, naquele momento.

Cena 14 – Gravação das Fitas – Arcano: A Sacerdotisa
A sabedoria adquirida sendo repassada para as filhas: a felicidade acima de tudo, pedir ajuda ao pai (que sabe mais do que parece), compreensão com a avó, a força para prosseguirem com seus sonhos, o incentivo para terminarem os estudos, o reconhecimento da incapacidade de falar sobre relacionamentos por não ter tido tempo e nem experiência nesse assunto.

Cena 15 – Desabafo no banheiro com Laurie – Arcano: O Diabo
Colocando as dores e os demônios para fora, mostrando porque o tumor desenvolveu-se tão rapidamente: duas filhas = dois ovários com tumor, espalhado pelo estômago (o que recebe todos os “sapos”) e chegando ao fígado (onde estava escondida toda a ira reprimida). Ali fica claro que Ann abriu mão da vida sem perceber que o fazia e que as decepções e responsabilidades fizeram dela uma pessoa sem sonhos. Quem pode viver, sem sonhos? Por isso, ela está morrendo.

Cena 16 – Na casa de Lee – Arcano: Os Amantes
Ela decide vê-lo, e percebe que ele está ali. O vê, mesmo quando ele não se mostra. Faz com que ele confesse ter pensado nela e no carro, enquanto ouvem “senza fine”, diz a ele que se não beija-la vai gritar. Seu grito é interrompido pelo beijo, que ele decide dar. Eles se amam, sem futuro e sem depois. Porque o depois não existe.

Cena 17 – Encontro com o médico frente a frente – Arcano: A Temperança
Ele senta a sua frente, diz que é terapia (para ele ou para ela?), ela desafia a maturidade do médico pedindo que ele guarde e entregue as fitas às suas filhas. Não confia no marido, mas confia na figura do Hierofante que o médico finalmente parece querer assumir de verdade.

Cena 18 – Com Laurie, convite para jantar e o Jantar – Arcano: A Lua
Completamente inconsciente de seu processo de ansiedade descontada na comida, Laurie conta calorias imaginárias. Janta na casa de Ann, mas come oito costelas e muito purê. Sua conversa é superficial e mesmo a filha pequena, de seis anos, a considera uma “porca”. Ann tenta arrumar-lhe desculpas enquanto conversa com Don... mas Laurie não precisa delas, não enxerga nada realmente do que vive, inconsciente que está das 1.500 calorias em bombons que traz nos bolsos.

Cena 19 – Conhecer a outra Ann e dançar com Lee – Arcano: O Carro
Dois caminhos que jamais seguiria normalmente. Deixa as filhas com a vizinha, seguindo seus instintos, e vai encontrar Lee, com quem tem uma dança romântica. Tal nunca tivera na vida.

Cena 20 – Conhecer a história de Ann e o aniversário da mãe – Arcano: O Diabo
Dores profundas na decisão da outra Ann (enfermeira) em não ter filhos, cuidou por 30 horas de gêmeos siameses que foram deixados para morrer. E a dor da mãe, contando do aniversário em que ganhou uma cumbuca de amendoim com uma vela. Nenhuma das duas aceita dividir a dor, ambas fogem dela: Ann deixando repentinamente o trailer, e a mãe evitando o contato carinhoso da filha.

Cena 21 – Despedida da cabeleireira – Arcano: A Estrela
Consegue as unhas que queria e nunca teve, dá um presente e uma certeza à cabeleireira: dizendo “adeus” diz que as tranças ficam muito bem nela.

Cena 22 – Revendo o Pai – Arcano: A Lua
Encarando o pai, ouvindo a sua verdade, finalmente ela consegue fazer o trajeto de volta para sua mãe. Compreendendo o que pai podia e não podia ser, ela percebe quem a mãe é. Ele não sabe, mas a despedida é definitiva.

Cena 23 – Doente em casa, fita de Don e da mãe – Arcano: A Sacerdotisa
Aqui a sabedoria vai para os mais velhos. Depois de atravessar a jornada lunar visitando o pai, ela consegue falar aos dois que tanto amava o que eles precisavam ouvir para transformar-se: a mãe para se realizar enquanto mulher (Imperatriz) e o marido para deixar de iludir e tornar-se pai (O Imperador).

Cena 24 – Restaurante, confissão de amor e despedida de Lee – Arcano: A Força
Ela vai a um restaurante que sempre quis ir, mas mal consegue comer quando Lee começa a descrever os lugares para onde gostaria de leva-la. Ela precisa sair, porque seu tempo está acabando. Recebendo a declaração de amor de Lee, ela realiza a integração entre paixão e sentimento, instinto e razão. Ela percebe sua própria força em viver tão intensamente, mesmo que por pouco tempo.

Cena 25 – Jantar da outra Ann, com Don e as crianças – Arcano: O Julgamento
Ela vê a vida que desejaria sem ela. Vê a outra Ann cuidando das crianças, do jantar e de Don. Percebe que haveria carinho, haveria felicidade. Reza internamente para que dê certo, para que sejam felizes e não se importa de morrer porque os devidos fantasmas foram exorcizados, é a renovação que a espera e que ela deixou de herança para cada um deles.

Cena 26 – Lee ouvindo a fita e a transformação de todos – Arcano: O Mundo
Enquanto ouve a fita, Lee vai ouvindo sobre o amor que sentia por ele apesar de não ter tido coragem de falar. Nesse meio tempo, enquanto a voz de Ann é ouvida ao fundo, a transformação ocorrida nos outros personagens pode ser vista, sentida, percebida. E o filme termina, com Lee pintando as paredes de sua casa, ou seja, recomeçando.


Ficha Técnica
Título Original: Mi Vida Sin Mi
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 106 minutos
Ano de Lançamento (Espanha): 2003
Site Oficial: www.sonyclassics.com/mylifewithoutme
Estúdio: El Deseo S.A. / My Life Productions Inc. Milestone Productions Inc. / SLU
Distribuição: Sony Pictures Classics / Warner Brothers / Imagem Filmes
Direção: Isabel Coixet
Roteiro: Isabel Coixet, baseado em livro de Nancy Kincaid
Produção: Esther García e Gordon McLennan
Música: Alfonso Vilallonga
Fotografia: Jean-Claude Larrieu
Desenho de Produção: Carol Levallee
Direção de Arte: Shelley Bottom
Figurino: Katia Stano
Edição: Lisa Robison

Elenco:
Sarah Polley (Ann)
Scott Speedman (Don)
Deborah Harry (Mãe de Ann)
Mark Ruffalo (Lee)
Leonor Watling (Ann)
Amanda Plummer (Laurie)
Julian Richings (Dr. Thompson)
Maria de Medeiros (Cabeleireira)
Jessica Amlee (Penny)
Kenya Jo Kennedy (Patsy)
Alfred Molina (Pai de Ann)
Sonja Bennett (Sarah)

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A Força – A Cura do Instinto Ferido

Por Ana Marques

A floresta está escura e quase silenciosa. Caminhamos lentamente por ela enquanto procuramos incansavelmente. Ruídos esparsos nos sobressaltam e, apesar da coragem com que nos investimos antes de adentra-la, não estamos preparados para o que desconhecemos. Somos seres desprotegidos ali, à mercê de qualquer predador que resolver nos atacar. Não conseguimos distinguir o que é o vento movendo um galho de um leopardo rondando sua presa.

Um rugido solitário soa ao longe...

Rapidamente seguimos nessa direção. Atravessamos os galhos cortando-os com o canivete. Temos pressa, temos muita pressa em chegar àquele som. Percorremos a floresta sem mais nos importarmos com os perigos que ela contém, nossa tarefa é urgente! Apuramos os ouvidos tentando ouvir novamente, mas os sons se misturam nos confundindo. Estamos quase correndo, tal é o nosso desespero por encontrar. Tanto nos apressamos que quase caímos numa armadilha esquecida por um caçador. Continuamos, pois o perigo nos mostra que é urgente continuar a busca.

Tropeçando, desorientados, cansados e famintos seguimos caminhando. Por um momento acreditamos perder as esperanças e então... mais um rugido solitário.

Guiamo-nos por esse ruído. Passamos a caminhar devagar para não perder novamente o senso de direção. Mais um rugido e estamos a cada momento mais perto.

Numa clareira avistamos a figura deitada de um leão. Chegamos até perto dele vagarosamente para que não se assuste. Paramos e deixamos que fareje o ar. Permitimos que se acostume ao nosso odor. Mais um tempo e nos aproximamos mais, até que podemos toca-lo. Sua cara mostra desconfiança e, ao olharmos com um pouco mais de atenção, compreendemos o motivo: suas garras foram cortadas, seus dentes arrancados, a maravilhosa juba foi raspada e existem feridas por toda parte. O leão que buscamos foi destituído de sua força e poder. Seus símbolos foram de si alijados. Sua autoconfiança foi minada. Olhamos esse triste espetáculo e nos olhos do leão lemos a acusação clara. Ele sabe quem fez aquilo com ele: fomos nós.

“Os impulsos suprimidos e feridos são os perigos que ameaçam o homem civilizado: os impulsos não reprimidos são os perigos que ameaçam o homem primitivo”
Aniela Jaffé, Symbolism in theVisual Arts

Nosso leão está ferido. É preciso resgatá-lo e devolver a ele a dignidade perdida. É preciso curá-lo para que recupere a sua força. Para que recuperemos a nossa própria força.


Simbolismo Tradicional

Uma donzela, com um chapéu em forma de lemniscata (símbolo do infinito), está suavemente abrindo a boca de um leão. Seu rosto e sua postura são serenos, seus pés estão firmes no chão. O leão não parece amedrontado, mas enfeitiçado. A moça não buscou domesticá-lo ou subjugá-lo, ela o acalma. Eles estão apoiados um no outro, e é esse apoio mútuo que permite o equilíbrio. A força foi conquistada amorosamente e ninguém precisou abrir mão de sua essência para tê-la.
É necessária muita coragem para enfrentar o leão. Muita ousadia para abrir-lhe a boca. Da mesma forma, foi inovador da parte do leão aceitar essa interferência, que não aconteceria se a jovem não tivesse conquistado sua confiança. A agressão não foi necessária porque abriu-se mão do domínio em prol da cooperação.
Vemos aqui uma clara aceitação dos aspectos indomados do inconsciente. Aniquilá-lo seria perder a própria essência e ser devorado por ele. Invadí-lo seria forçá-lo a nos ferir. Compreendê-lo é trazê-lo até nós. Conhecê-lo mostra que podemos exercer o controle, e dessa forma, promover uma real interação. A moça é terna, suave e persistente. Sem a persistência ela jamais teria se aproximado do leão. O leão é amoral, instintivo e ágil. E é seu instinto que permite a aproximação dela. Se olharmos a figura detalhadamente, veremos que ambos formam uma única e harmoniosa figura. A força bruta aqui não é vencida, ela é integrada.

A Bela e a Fera

O conto “A Bela e a Fera” tem encantado gerações de crianças e após a filmagem de Walt Disney, houve um aumento significativo da importância desse conto. Numa de suas inúmeras versões, Bela pede uma rosa ao pai que a pega de um jardim num castelo aparentemente desabitado. Ao fazê-lo desperta a ira de seu dono: um leão. O Leão só permite que ele viva, se a filha viesse ao castelo e ficasse prisioneira no lugar do pai. Apesar de aparentemente aceitar, o pai pretendia despedir-se da filha e voltar para a fera. Mas a menina não aceita e volta em seu lugar. Após temer muito a fera, ela passa a se aproximar dela. Apesar de ser um leão, ele é gentil e delicado. O pai doente a obriga a se ausentar, e embora tenha prometido voltar logo, ela demora. Quando volta, vê que a fera está agonizando. Chora sobre seu corpo e beija-lhe os lábios, nesse instante a fera se transforma num belo príncipe. Ele conta que foi amaldiçoado e que apenas o amor poderia quebrar essa maldição, um amor que fosse mais forte que sua temível aparência. Eles se casam e vivem felizes para sempre.
Uma bela história. Mas, principalmente, uma história de magia e recuperação. Bela precisa vencer sua repulsa para se aproximar da fera e descobrir o amor. A fera precisa aprender a confiar para que sua maldição seja quebrada. O amor é a força transformadora que une duas naturezas aparentemente incompatíveis. Sem que esse amor seja descoberto e funcione como elo de ligação a fera morreria e Bela teria uma parte importante de sua história perdida irremediavelmente. E seria a melhor parte.
Embrenhar-se na floresta para buscar o leão que (acreditamos) irá nos devorar é um mergulho direto no inconsciente. Bela não vai disposta a vencê-la ou matá-la, mas a se entregar. Ela não quer ser mais forte ou mais esperta que essa força primordial, apenas vai ao seu encontro. Pensando encontrar a destruição, encontra o amor. E essa é a força que permite com que ela atravesse as barreiras sociais simbolizadas pela feiúra. Libertando-se de barreiras ela amplia os horizontes da própria vida e eles são felizes para sempre.

O Leão da Neméia

Alguns tarôs antigos, e o atual tarô Mitológico, trazem a figura de Hércules matando o leão da Neméia como símbolo desse Arcano. Apesar de haver uma clara simbologia relacionando a vitória de Hércules a predominância da civilização sobre o Leão, significando a barbárie, tentar utilizar essa correlação com o tarô não é algo com o quê eu consiga concordar. A força primordial do leão, um animal que prima simbolicamente pela coragem e realeza, não necessita ser sufocada para que usando sua pele possamos absorver sua força. Este leão não é nosso inimigo, ele faz parte de nós!

Nesse arcano estamos indo a busca de nossos instintos naturais: aqueles que nos mantém vivos e alertas. Eles são a diferença em nossa força se estiverem integrados a nós. Se os ignorarmos, tornando-os feras enjauladas e sem alimento, eles poderão se rebelar e nos devorar. Eles se voltarão contra nós. Tenho encontrado muito o verbo domar quando se trata desse arcano, termo com o qual discordo profundamente. Se pensarmos em como um animal é domado em circos (ou mesmo fora deles), veremos que torturas são impingidas, a cada erro são dados castigos mais fortes e, uma perda da identidade natural quando são mantidos em jaulas minúsculas com condições abomináveis de vida. Toda a altivez do animal é reduzida a pó, embora necessite fazer um bom espetáculo, senão os castigos podem ser ainda maiores.

A sociedade como um todo impôs que todos devíamos ser civilizados. Devíamos rejeitar os instintos naturais (diretamente ligados à intuição) em prol do que podíamos explicar ou esperar. Somos educados a minar esses instintos, sem conhecê-los direito, de forma que não percebemos sua importância até que precisamos nos defender e algo invisível nos falta. Precisamos dizer não e não sabemos como, precisamos demarcar nosso espaço para que não nos invadam e não entendemos demarcar, precisamos preservar nossa auto-estima de pessoas invejosas e tememos magoá-las nos distanciando. Quando mutilamos nosso instinto, nos tornamos doentes e indefesos. Suas garras são nossas garras, seus dentes afiados são nossos dentes afiados. Sem isso estamos à mercê. Se o desorientamos, não poderemos perceber quando estiverem invadindo nosso espaço. É o seu alerta que irá nos avisar quando estivermos a um passo da autodestruição.

"Ainda que dê a impressão de dominar o leão, a dama também participa da sua essência."
Sallie Nicholls – Jung e o Tarô


O Equilíbrio – A Busca e a Cura

Voltemos a frase do final do primeiro tópico é preciso curá-lo para que recupere a própria força. Para tanto, precisamos sair em busca de nosso instinto e parar de aparar-lhe as unhas ou arrancar-lhe os dentes. É preciso acalmá-lo para que ele nos deixe cuidar dele. No início pode não ser fácil, mas é necessário.

“Eu sei, que o coração perdoa
Mas não esquece à toa e eu não esqueci
Não vou mudar, esse caso não tem solução
Sou fera ferida, no corpo e na alma
E no coração”
Fera Ferida – Roberto Carlos e Erasmo Carlos

O equilíbrio e, consequentemente, a cura virá da eliminação do medo, dessa forma faremos as pazes. Não podemos continuar alimentando o medo de nós mesmos. A falsa idéia de que estar equilibrado é ser sempre calmo e controlado é uma armadilha. Se algo nos irrita precisamos buscar a causa do perigo, não tentar eliminar o sintoma. Precisamos rugir de vez em quando. Se a ira nos torna pessoas insuportáveis, é preciso entender o motivo pelo qual ela nos acomete e não somente reprimi-la.

Fazer com que a fera volte para nós e a fazer parte de nós é um longo processo. Mas que pode resgatar a noção de realidade: aquela em que não nos violentamos para sermos agradáveis.

"Não estou no mundo para corresponder às expectativas alheias. Minha vida pertence a mim. E isso é igualmente verdadeiro para os demais seres humanos."
Nathaniel Branden

É preciso uma força brutal para reconhecer e aplicar a frase acima. É preciso que esta força não tenha sido domesticada dentro de nós mesmos para que tenhamos a energia necessária para conquistarmos nossa própria vida. É hora de curar as feridas do seu leão, dar a ele tempo para convalescer e depois deixá-lo  recuperar a autoconfiança. Recusemos colocá-lo em cativeiro. Fazer isso é permanecer em cativeiro também.

domingo, 10 de junho de 2012

A Pequena Vendedora de Fósforos

O Louco e a Fuga da Realidade

Por Ana Marques

Hans Christian Andersen ficou famoso por seus contos infantis, alguns de final trágico ou triste e todos contendo uma lição de moral (cristã) bastante evidente. Nelas podemos encontrar, se procurarmos, os Arcanos do Tarô e seus variados aspectos, as inúmeras faces sob a forma, por vezes misteriosa, de heróis e heroínas que moram no imaginário popular. Num dos mais belos contos de Andersen, encontramos o Arcano 0 (ou 22) – O Louco – fugindo da vida que leva e enganando a si próprio. Eis a história da pequena vendedora de fósforos:

imagem: Mickey89Eli


“Uma pequena menina andava pelas ruas geladas. Era véspera de Natal e as pessoas estavam em suas casas para comemorar essa data especial. Naquele dia, ninguém comprara um fósforo. Todos estavam ocupados em arrumar árvores, embrulhar presentes e fazer a ceia.


A menina, que há muito perdera os sapatos, andava descalça sobre a rua gelada. Tentava desajeitadamente oferecer fósforos para aqueles que, hora ou outra, passavam apressados pela rua. Porém, apesar de seus lindos cabelos loiros e do olhar febril, os passantes não a viam, preocupados que estavam com a própria vida.

Ela seguia em frente, não tinha coragem de voltar para casa sem ter ganho nenhum dinheiro porque sabia que seria castigada. Cansada, sentou-se no degrau de uma escada, numa viela escura. Estava enregelada, e não tinha um bom casaco (ou meias e sapatos) para se aquecer, apenas seus fósforos. Olhou para eles e pensou que, se seria castigada de qualquer forma, pelo menos não passaria tanto frio. Decidida, acendeu o primeiro pensando em tentar acender uma pequena fogueira. Entretanto, quando a chama brilhou, seu olhar perdeu-se dentro da imagem de sonho que viu no brilho do fogo: uma grande, bela e enfeitada árvore de natal, daquela que tinha sonhado sua vida inteira. A árvore resplandecia e a menina olhava encantada para ela. Havia fogo na lareira e o frio tinha ido embora. Esticou a mão para tocar a árvore e nesse momento... o fósforo se apagou, levando todo o sonho embora.

A menina ficou desolada, tinha voltado à escuridão da rua e ao frio da noite. Resolutamente acendeu outro fósforo e nova imagem se apresentou: um grande peru assado com maçãs estava sendo colocado na mesa, havia nozes, doces e uma série de pratos que ela nem mesmo saberia nomear. O cheiro estava delicioso e ela se apressou para provar a comida, porém não foi rápida o bastante... o fósforo se apagou levando seu sonho com ele.

Imediatamente acendeu outro e para sua surpresa a chama mostrou-lhe uma pessoa. Sua querida avó, a única pessoa que havia realmente a amado e tratado com bondade – mas que já havia partido desse mundo – começou a se aproximar dela. Desesperadamente, a menina começou a acender um fósforo atrás do outro para não perder essa imagem. A avó chegou perto dela e sorriu, a abraçou ternamente e chamou para ir embora com ela. A menina sorriu verdadeiramente em anos: ela iria com a avó, viveria aquele sonho onde não havia frio, nem dor e nem fome. Onde alguém a amaria realmente. Agarrou-se a avó e foi subindo com ela em direção ao céu estrelado, para onde ela ia sempre seria natal, sempre haveriam festas e presentes, e ela seria amada de verdade.



imagem: Mickey89Eli


No dia seguinte, pessoas que passavam encontraram o corpo gelado da menina encostado na escada. Apesar da pena de ver uma criança tão nova sucumbir daquela forma, todos notaram o sorriso de felicidade e a expressão de paz que ela trazia no rosto e se perguntavam com o que ela sonharia antes de morrer.”


A menina, personagem da nossa história, anda a esmo pelas ruas e tenta, desoladamente, chamar a atenção das pessoas que a ignoram. A sua carência excessiva de uma figura que a guie faz com que ela se torne um problema para a sociedade local, por isso todos passam por ela fingindo não vê-la e não perceber sua situação desesperadora. Todos representantes do Louco: mendigos, crianças de rua, bêbados, sem teto; quem realmente olha para eles?

Como o Louco, ela é inocente e inexperiente, e por isso não tem noção das conseqüências de seus atos: prefere ficar escondida numa escada gelada a voltar para casa. Seu instinto de sobrevivência – simbolizado no Arcano pelo cachorro – a abandonou, em algum momento de sua vida ela perdeu-se dele. A carência de qualquer afeto, faz com que ela se desligue de si mesma, e mesmo os mais básicos instintos de proteção parecem inexistir: ela não procura um lugar quente ou ao menos fechado, não junta gravetos para poder fazer uma fogueira. Simplesmente acende um fósforo, e desperdiçando a chama da vida, inicia sua fuga.

A Fuga da Realidade



O Louco possui a capacidade de passear e subverter todos os demais Arcanos: ele é o grande viajante do tarô. Não existe uma trajetória linear quando ele está envolvido e sua tarefa é mostrar novos ângulos, aprender o impensável das formas mais inesperadas possíveis. No entanto, da mesma forma, ele é aquele que de tanto caminhar, pode cair em círculos viciosos. Ingênuo, pode acreditar nas mentiras do Mago. Imaturo , pode ignorar os sábios conselhos da Sacerdotisa. Rebelde, pode passar ao largo da autoridade da Imperatriz – deixando assim de ser nutrido – e do Imperador – perdendo a oportunidade de reconhecer limites. Os seus limites e os dos outros. Irresponsável, perde a capacidade de compreender os ensinamentos que o Hierofante pode disponibilizar. Não possuindo a base inicial, o Louco se perde em suas próprias possibilidades e, ao invés de trilhar um novo caminho, acabar por não trilhar caminho algum.

A menina é o retrato disso: não tem pais que velem por ela, sua avó (que a amou) já se foi. Ela teme o mundo adulto, por isso tenta vender-lhes fósforos – a chama da vida – mas não consegue chamar-lhes a atenção. Na realidade, nem mesmo poderia. A chama que ardia internamente nela se apagou e pessoas assim tendem a passar despercebidas. A chama externa não é forte o bastante, não conseguindo nem mesmo durar tempo suficiente para que a menina possa fugir de maneira satisfatória da própria realidade.

Os fósforos são acendidos, e se apagam rapidamente, porque o fogo produzido não é alimentado – vida se alimenta de vida – e a menina esqueceu (ou deixou de lado) essa premissa básica que poderia ter significado a sua sobrevivência. A cada chama acesa, ela foge um pouco mais. Ela não deseja salvar-se, apenas sonhar. Assim como os loucos que vemos nas ruas ou em manicômios, é mais fácil ser Napoleão e colocar a mão por dentro do casaco numa eterna pose imaginária, do que buscar a si mesmo. Para que buscar a solução para os problemas reais: na imaginação tudo acontece magicamente. A realidade exige comprometimento e disposição para deixar de ser ingênuo e aprender com os demais Arcanos. É preciso seguir a jornada para salvar-se da morte certa. Porém, ela prefere sentar-se na escada gelada e acender os fósforos.

A vida, mesmo que escapando rapidamente de suas mãos, mostra-lhe sonhos dourados: a árvore, o peru, a avó. Ela sonha com a beleza, com a satisfação e com o amor. Ela deseja, mas não busca alcançar. Desesperada para continuar sonhando, não se importa em desperdiçar toda chama que possui consigo, e quando vê a avó se aproximando sucumbe inteiramente. Ela se entrega ao sonho e abdica completamente da realidade. Como as pessoas que vivenciam as armadilhas dos sonhos inalcançáveis e realidades frustrantes, ela sente que é infinitamente mais agradável sonhar, mesmo que isso signifique matar a própria alma. Prisioneira das fantasias do Louco, a menina se entrega ao sonho sem concretização e deixa-se matar pelo frio.

O que não realiza, se exaure e o calor vai embora. Ela morre, mas seu sorriso mostra que está em paz: morrer é a última e definitiva fuga.

domingo, 13 de maio de 2012

Sapatinhos Vermelhos - A Sacerdotisa Mutilada


Por Ana Marques

Nenhuma busca é em vão. Somos todos buscadores de sonhos, de conquistas e de realizações. Nesse caminho, porém, inseridos numa sociedade castradora e formadora de uma homogeneidade doente, é comum irmos abrindo mão de aspectos importantes de nosso eu e da nossa capacidade crítica em prol de uma melhor aceitação perante aos outros. Como quem anda a esmo numa floresta desconhecida e ameaçadora, pedaços de nós mesmos vão sendo arrancados pelos galhos cortantes e deixados para trás, até que cheguemos mutilados ao encontro da civilização. Inteiros não seríamos aceitos, fora de nós aquelas partes nem mesmo parecem fazer sentido, e calcados nesse raciocínio deixamos que essas partes morram à míngua.

No entanto a floresta é imaginária, embora a mutilação seja real. Nossos pedaços permanecem esperando por nós, aguardando que os resgatemos e não joguemos mais a culpa de nossa incapacidade de assumir quem realmente somos em galhos fantasiosamente cortantes. A Sacerdotisa é o arcano que primeiro ilustra a busca interior e a compreensão de si mesmo, o reconhecimento do eu e dos aprendizados que temos na vida. Quando mutilamos esses aprendizados e renegamos partes de nós mesmos, profanamos nosso templo interior - o reduto da Sacerdotisa - em prol de uma aceitação que nos deixa dependentes do modus vivendi externo. Para ilustrar esse processo veremos o conto Sapatinhos Vermelhos, de Hans Christian Andersen.



"Era uma vez uma menina que morava na floresta e um dia resolveu fazer sapatos para si mesma. Recolheu pedaços de pano vermelho aqui e ali e costurou sapatos vermelhos para si. Sentia-se linda com eles, porque sua cor forte a deixavam feliz. Saltitava entre as árvores e mesmo quando a comida era um problema, sentia-se confiante por causa da beleza de seus sapatos e de sua capacidade de fazê-los.
Um dia, uma boa senhora a viu sozinha e apiedou-se. Chamou-a e convidou-a a entrar na carruagem para viver com ela, em que a senhora cuidaria de seu bem estar e a menina lhe faria companhia. Tentada pela proposta de não mais precisar passar fome e poder ter uma vida mais confortável, a menina aceitou o convite e entrou na carruagem dourada.
Chegou na bela casa da Senhora e foi levada a tomar banho, e depois de penteada e vestida, deram-lhe belos sapatos pretos para calçar. Inconformada, perguntou pelos sapatos vermelhos e foi-lhe mostrado o fogo onde seus antigos pertences - inclusive os sapatinhos - ardiam, numa destruição sem volta.
A menina chorou a perda dos sapatos porque ela os amava. Mas a cada dia que passava, chorava mais por outras coisas: pelo fim dos dias saltitantes, das risadas altas, da cantoria despreocupada. Agora era preciso pisar leve e falar baixo, porque qualquer movimento brusco desagradava a Senhora e seus empregados. A menina vivia tentando se controlar, buscando se adequar ao papel que esperavam dela. Ela gostava das coisas bonitas que lhes davam, mas sentia falta de algo e não sabia precisar o quê.
Ao seu aproximar o dia de sua primeira comunhão e a Senhora a levou para comprar um par de sapatos novos para a ocasião. Quando chegaram ao sapateiro, logo na entrada, a menina viu um par maravilhoso de sapatos vermelhos. Eles estavam lustrados e brilhavam tanto que seu coração pareceu parar por um instante, porém ela sabia que a Senhora jamais permitiria sapatos como aquele. O sapateiro, vendo seus olhos desejosos, sugeriu inocentemente para a Senhora: "Por que não leva os sapatos da vitrine? São bonitos e estão perfeitamente lustrados. Dignos de uma moça como sua filha". A Senhora, que não enxergava bem, aceitou a sugestão de bom grado e enquanto os olhos da menina brilhavam de contentamento, os do sapateiro piscavam maliciosamente.
No dia de ir à missa, a menina calçou maravilhada os sapatos e saiu com a Senhora em sua carruagem. Quando desceu em frente à igreja, um soldado veio ao seu encontro e disse "Que belos sapatos vermelhos!" e batucou levemente neles uma musiquinha engraçada que deu cócegas nos pés da menina. A menina deu volteio e riu "Não são mesmo lindos?". Porém não conseguiu parar. Ao iniciar o passo de dança, os sapatos ganharam vida própria e sairam dançando alegremente, levando-a com eles. A Senhora, horrorizada, gritava para que ela parasse, mas era impossível deter os sapatos. Por fim, com a ajuda do cocheiro, conseguiram arrancar os sapatos da menina e a Senhora a proibiu de usá-los novamente, guardando-os no alto de uma prateleira em seu próprio quarto.
A menina, mesmo com a experiência assustadora de não poder parar de dançar, ansiava pelos sapatos vermelhos. Ele pareciam chamá-la e nada mais parecia fazer sentido se ela não pudesse calçá-los novamente, por alguns minutos que fosse. Um dia a velha Senhora caiu doente e enquanto todos se acercavam de sua cama, a menina sorrateiramente tirou os sapatos da prateleira e saiu da casa. Mal podia controlar a excitação de calça-los novamente e ao fazê-lo saiu dançando alegremente e por uma ou duas horas foi perfeitamente feliz. Mas a menina começou a ficar cansada, queria parar de dançar e voltar para casa, e ao tentar parar, percebeu que seus pés não lhe obedeciam. tentou novamente e nada. Não havia como parar de dançar. Nesse momento passou pelo Soldado de cabelos vermelhos e ele sorriu dizendo "Que belos sapatos vermelhos!" e rodopiando sem parar ela o deixou para trás. Dias e noites se passaram, a menina sentia a vida esvair-se de seu corpo por não poder alimentar-se, dormir ou beber um pouco de água; passou um dia em frente a casa da velha Senhora e percebeu que ela tinha partido desse mundo, mas nem mesmo um adeus pode dar e seguiu dançando. Um dia estava dançando em frente a uma igreja e tentou lá entrar, mas um anjo veio e lhe deu a triste notícia de sua sina: 'Noites e dias vai percorrer, essas florestas e bosques da manhã até o alvorecer, nenhum momento poderá parar, por esses sapatos amaldiçoados usar, e aqui também jamais poderá entrar, por esses sapatos amaldiçoados usar. Segue seu caminho, até que o teu destino, se cumpra completamente: perder carnes e peles, até que apenas seu esqueleto reste, dançando nesses sapatos malditos.'. A menina tentou implorar, mas os sapatos a levaram para longe dali. Já desesperada, cansada de tanto dançar e chorar, chegou a casa do carrasco da vila. Implorou a ele que a ajudasse a tirar aqueles sapatos, o que ele tentou sem sucesso. Cortou as correias, mas nada os fazia sair dos pés da menina e era preciso amarra-la para que não saisse dançando durante as tentativas. Sem mais opções, a menina implorou que ele cortasse seus pés fora, porque preferia viver aleijada do que naquela dança sem fim que a mataria sem demorar. Após muito relutar, o carrasco concordou e depois que cortou os pés da menina, os sapatos - e os pés - saíram dançando pela floresta.
A menina viveu aleijada para sempre: sem saltitar, sem cantar, sem rir. E nunca mais quis saber de sapatos vermelhos."

Temos aqui um personagem central, a menina, e alguns coadjuvantes de peso: a Senhora, o Sapateiro, o Soldado de cabelos vermelhos, o Anjo e o Carrasco. Cada um deles tem papel preponderante na história da menina, e na forma como ela passa de criança saltitante a menina aleijada. Não é um processo moral, embora muitos possam enxergar por esse lado, que a leva de um extremo a outro, mas um processo de perda da conexão interna.

Existe uma floresta, que por muitos poderia ser considerada ameaçadora, mas que é o lar da Menina. Ela busca seus alimentos, resguarda-se do frio e da chuva, brinca, e constrói sua pequena vida nesse lugar. Ali ela está integrada consigo mesma e enfrentando as dificuldades, vive feliz. Sua vida é tão plena, que ela dá a si mesma um maravilhoso presente: um par de sapatos vermelhos. Por serem feitos a mão – e com pedaços de tecido que ela vai conseguindo – eles contém o que há de mais puro em sua essência: o reconhecimento de sua capacidade e liberdade. Nesse momento, enquanto resguarda-se do mundo exterior, a Menina é como a Sacerdotisa do Tarô: seu conhecimento é inteiro sobre si mesma, aprende de fora para dentro, guarda-se dentro da floresta – da mesma forma que a Sacerdotisa guarda o essencial atrás das colunas do Templo Interior.

A Alta Sacerdotisa, The Old Path Tarot

Porém, uma armadilha surge no caminho da Menina: a carruagem dourada. É uma armadilha porque visa, primeiramente, colocar a menina numa posição inferior: a posição de necessitada. Sem conhecer o rico mundo interior da Menina, a velha Senhora somente pode ver o exterior que lhe parece pobre e carente de recursos, vê a Menina como alguém que precisa ser recuperada da uma vida selvagem e reintegrada à vida em sociedade. Iludida pelo brilho, a menina confunde conforto com felicidade e entra na carruagem dourada, esquecendo de que mesmo de ouro, uma gaiola continua sendo uma gaiola. Saindo de seu mundo, selvagem e pessoal, ela adentra o mundo social, do protocolo e da homogeneidade; dessa forma, a primeira providência é torná-la limpa, e o segundo é retirar da Menina seu mais forte laço consigo mesma: os sapatos vermelhos. Ela os havia feito, depositando neles toda sua feminilidade, alegria, vivacidade e prazer. Ao vê-los queimados, uma parte de si deixa de existir. Ela é invadida em seu espaço sagrado, mas ao invés de se rebelar ela aceita porque vê a aparência de prosperidade no local e acaba por acreditar que aquela fartura iria contagiá-la e fazê-la inteira novamente.

Um a um seus pequenos hábitos, que a tornavam tão feliz, vão sendo cortados: ela não pode pular, nem cantar, nem rir alto. Vagarosamente, hábitos novos vão lhe sendo impostos e cobrados: ir a igreja, ficar em silêncio, calçar sapatos pretos. Na necessidade de se adequar ao novo mundo à sua volta, e tentando ser aceita, ela vai permitindo que essas pequenas rupturas aconteçam. Rupturas essas que vão deixando feridas na alma da menina, fazendo dela uma Sacerdotisa sem lar, sem colunas para defender e sem a sabedoria intrínseca. Com a autoconfiança abalada, ela vai aos poucos se entregando a um modus vivendi que não lhe pertence, que lhe tolhe a liberdade e desconecta seu corpo de sua alma. A menina se cala, e em seu silêncio sacerdotal, vai colocando as sementes de frustração que farão com que ela perca o controle de si mesma ao se deparar com um novo par de sapatos vermelhos.



O Arcano 2 não é ativo, em sua essência. Ele busca um conhecimento que visa compreender o que está fora, de acordo com a percepção interna. Sendo assim, sua tendência é a de experimentar, ou seja, levar para dentro para adquirir experiência. Nada em sua simbologia denota uma capacidade de lutar contra os profanadores, mas de convertê-los ou – no máximo – afastá-los. Mas ela pode ser enganada. E enganada pela aparência da casa grande, do luxo, da comida fácil e de uma cama quente, ela se deixa enredar entre as proibições e pelos prazeres. Ela se deixa seduzir pela pretensa companhia, pela idéia de ter alguém a velar por ela e de não estar só. Ela decide experimentar essa vida, e apega-se a ela, mesmo significando uma insatisfação constante da qual nada consegue livrá-la. Caso ainda estivesse conectada a si mesma, caso ainda confiasse em seus instintos, ela perceberia rapidamente o alto preço que a sociedade estava lhe cobrando para aceitá-la em seu seio. Se estivesse atenta aos avisos de perigo no caminho, ela perceberia que o aprendizado ali era sobre o predador, e não sobre a conquista da felicidade. Porém, ela não pode mais ver, porque seus olhos internos estão cegos, não acredita mais em sua própria capacidade de cuidar de si mesma. A dor aumenta, e algo dentro da menina se quebra: o mundo externo da Sacerdotisa precisa necessariamente refletir o seu mundo interior, e quando eles entram em divergência, a unidade deixa de existir e a Sacerdotisa perde a referência: o Templo Sagrado foi violado.

Perdida em reflexões que não a fazem ver que está tentando se encaixar numa forma que não é de seu tamanho, a ira causada pela dor apenas a deixa mais vulnerável e sem armas para reconhecer novas armadilhas, fazendo com que ela caia na próxima: os falsos sapatos vermelhos.

Os primeiros – que ela mesma tinha feito – possuíam parte da sua alma e refletiam quem ela era e como se via; esses outros sapatos – feitos para atrair a cobiça – tinham em si a semente da perdição. Ao vê-los, confundiu o objeto com o sentimento, e acreditou que ter sapatos vermelhos tirariam dela a dor e fariam com que fosse novamente livre. Imersa na necessidade de ser aceita na sociedade que não a refletia, ao mesmo tempo que buscava algo que a ligasse à sua vida pregressa, ela se deixou encantar pela aparência, pela idéia de possuir qualquer coisa que a lembrasse da felicidade perdida. Porém, os novos sapatos, imbuídos que estavam de uma simbologia que a eles não pertencia, despertaram nela uma avidez desconhecida. O sapateiro, aqui uma clara representação do lobo em pele de cordeiro, percebe esse sentimento da menina e a ajuda a enganar a velha Senhora para que a Menina possa comprar os sapatos. Ele é a mão que estica o fio invisível para que a Menina tropece. A velha Senhora, que não pode ver antes que a menina não era necessitada, não pode ver agora o perigo que a rondava, e visando apenas o conforto e adequação, deixa que o perigo se acerque. A Menina por sua vez, vítima ativa nessa história, aceita a felicidade fácil e embrulhada para presente: compra os sapatos.

Criando uma miragem de felicidade, a menina calça os sapatos pela primeira vez, o soldado – personificando aqui a natureza instintiva que vem mostrar o real significado dos mecanismos de fuga – toca no sapato e a melodia faz vir a tona a verdadeira característica do objeto: retirar a vontade própria. Os sapatos tomam conta dos pés da menina e a fazem dançar descontroladamente. Horrorizada com seu comportamento impróprio, a velha senhora limita-se a retirar os sapatos à força, proibindo seu uso sob qualquer circunstância.

O tiro sai pela culatra. A Sacerdotisa – apesar de passiva como colocado anteriormente – necessita de respostas, e não de ordens. Tonta pelo sentimento de euforia dado pelos sapatos e sem compreender os motivos que da proibição, não consegue perceber que os sapatos não lhe deram a inteireza desejada e a dominaram mais que a velha Senhora, e passa a sentir aumentar a necessidade de calçá-los novamente. Vê neles aquilo que não encontra mais dentro de si – uma alegria extasiante – e não diferencia esse sentimento borbulhante, e destrutivo, do antigo sentimento de tranqüila liberdade. A Menina se deixa fascinar e aguarda o momento em que poderá experimentar tudo de novo, passando a viver para isso. Ele chega quando a velha Senhora adoece e o único obstáculo existente entre a Menina e os sapatos deixa de ter força. Aproveitando-se da fraqueza da velha Senhora, a menina pega os sapatos e corre para a liberdade. Ou melhor, para uma pretensa liberdade.



Mesmo com todo o fulgor da dança, mesmo com todas as belas paisagens que ela pode ver, nada mais está a seu alcance. Logo a menina percebe que é prisioneira de uma liberdade fictícia, que os sapatos não permitem que ela tome decisões, não a deixa aproveitar o que está lá fora e mesmo a dança passa a ser um martírio, ao passar horas e horas exaustivamente executando-a. Tornando-se uma refém dos artifícios usados para se sentir dona de seu própria espaço, a menina vê-se engolfada pelas dores de não controlar mais nenhuma de suas reações e não ter mais a opção de satisfazer qualquer necessidade, por mais básica que seja. É a Sacerdotisa presa num Templo inexistente, sem conexão consigo mesma, e incapaz de escapar dele.



Dançando sem parar, sem poder comer ou descansar, a menina segue o caminho desejado pelos sapatos. É expulsa pelo Anjo, porque a força para redimir-se seria lutar com a dominação em que se perdeu, e aceita um destino trágico considerando-se amaldiçoada. Deixando-se enredar, a menina se entrega nas mãos do Carrasco da vila, permitindo que ele corte seus pés – perdendo completamente a possibilidade de ir aonde e quando quiser – e mutila a Sacerdotisa que existe dentro de si. Antes o templo estava violado, mas a incapacidade de ação efetiva do Arcano – refletida na menina - acaba por permitir sua destruição. Estão ambas presas agora, para sempre.



Fonte: Mulheres que correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Éstes.
Imagens retiradas do filme "Sapatinhos Vermelhos", dirigido por Michael Powell, Emeric Pressburger. Roteiro de Micheael Powell (inspirado no conto de Hans Christian Andersen).

terça-feira, 21 de setembro de 2010

A Força e O Enforcado

XI - A Força

A Força - Tarô de Marselha
Afrontar a natureza instintiva invadindo seus domínios, é pedir para ser devorado. É preciso coragem para enfrentar o leão e acalmá-lo. Necessário ter uma enorme força interior, para que a força bruta não se sobreponha e vença. A donzela ao lado mostra serenidade e, dessa forma, consegue estar perto da própria fera, olhá-la e abrir a sua boca para ver o que contém. Na cabeça da donzela está a leminiscata (o chapéu), que a coloca em contato com sabedorias universais. Ela não está dominando o leão, mas mostrando que é parte dele. Ela o deixa conhecê-la, senti-la e cheirá-la. Seus pés descalços estão em contato direto com a terra, na mesma terra que o leão pisa: eles são um só e estão descobrindo a força que essa descoberta possui. O desafio consiste em não tentar domar esse leão, símbolo dos instintos naturais, mas o de integrá-lo beneficiando-se de sua força sem, no entanto, condicioná-lo a um comportamento cortês que o descaracterizaria. O leão , que temos dentro de nós, é a nossa defesa, é aquele que nos avisa quando invadiram nosso território, quando estamos prestes a abrir mão de nossa vida, quando nos lançamos em neuroses que podem nos privar de nossa razão. Ele é o nosso sensor do perigo, porque possui um desenvolvido instinto de sobrevivência. Ele estuda, verifica, defende. Sem ele, seremos presas fáceis de nossos predadores. Sem ele seremos gatos sem garras, leões sem dentes, macacos sem agilidade e estaremos a mercê. É preciso conhecer e integrar a força instintual que trazemos em nosso interior. É imprescindível percebê-la agindo e escutar seus avisos e conselhos. Mas, além disso, é necessário preservá-la para que ela nos ajude a nos preservarmos.

Utilização prática: Um momento de poder chegou, o conhecimento de forças que não sabia existir em seu interior está disponível. É hora de abraçá-la e interiorizá-la, para que ela possa fazer parte de você e você fazer parte dela. Não tente dominá-la, coopere com ela. Deixe que essa força te impregne, que corra pelas suas veias e inunde suas células. Você vai precisar dessa força, deixe-a ser UNA contigo.

XII - O Enforcado

O Enforcado - The Sacred Rose
Uma parada obrigatória. Não há como evitá-la. Tenha sido por escolha, caminho ou por acidente, estamos impossibilitados de continuar. Pelo menos, durante um tempo. Nenhuma revolta surtirá efeito. Nenhum remédio, a não ser paciência, poderá ser utilizado. O Enforcado está preso pelo pé e com as mãos amarradas não se pode soltar. É preciso, portanto, olhar a vida sob outro ângulo e perceber novos aspectos. Deixar que a cabeça entre em contato com a terra, para que ela seja nutrida e possa germinar novas idéias, numa próxima fase. Permitir ficar observando. O número quatro, que o Enforcado faz com as pernas, é o número que espelha a concretização: ele poderá concretizar muito dos planos sonhados enquanto estiver nessa posição, mas é importante saber esperar o momento certo. O chão está coberto de flores, que mostra a fertilidade que a terra está ofertando. Uma das lendas sobre o Deus Odin, na mitologia nórdica, diz que ele dependurou-se ferido em Yggdrasil, por nove dias e nove noites, para ter direito ao dom da profecia. Da mesma forma, um período contemplativo poderá nos dar consciência de potenciais que temos e podemos desenvolver. O desafio consiste em aceitar o conhecimento que essa fase irá trazer, sem tentar espernear loucamente para sair dali. Pode-se partir a corda fazendo isso e, em conseqüência, quebrar o pescoço na queda. É preciso olhar profundamente para dentro de nós mesmos, do que nos levou por esse caminho, onde a corda esperava para nos prender o pé. Compreender para superar. Se ficarmos indiferentes, apenas esperando que o tempo passe, essa situação irá se repetir indefinidamente.

Utilização Prática: Deixe-se ficar parado. Deixe-se olhar a vida por ângulos diferentes. A vida o coloca em suspenso, para que observe seu próprio interior e descubra o que há nele. É preciso aceitar esse período de meditação, deixar que ele mostre as lições necessárias. As ações estão prejudicadas, nada começará ou se concretizará nesse período. Existem ervas daninhas que precisam ser identificadas, do contrário todo o jardim pelo qual está tendo tanto trabalho, perecerá.

domingo, 24 de janeiro de 2010

A Torre - Rupturas e Libertações

Por Ana Marques


Há quanto tempo rejeitamos as tempestades que chegam, aparentemente, sem avisar? Há quanto tempo ignoramos os avisos que nuvens negras se acumulando no horizonte vinham trazendo? Há quanto tempo receamos ver qualquer perigo rondando nossa bem montada estrutura a ponto de nos cegarmos diante de tantas mensagens? A nossa cegueira, cada dia mais profunda, nos impede de perceber as sutis transformações que vão acontecendo ao nosso redor: raios esparsos, céu carregado, eletricidade no ar, uma ansiedade sem nome. E, aparentemente surpresos, vemos a tempestade desabar.

Não importa por qual meio procuremos nos esconder; quantas casas, sobrados, castelos, torres ou fortalezas construamos para nos proteger. Em algum momento, tudo rui ao nosso redor. Por mais que desejemos continuar nossa vida como sempre foi, somos derrubados quando nos recusamos a nos libertar sozinhos.

Em algum momento os raios e trovões mostrarão a fúria da natureza perante a nossa imutabilidade e atingirão a nossa Torre. Não importa com qual material e técnicas a tenhamos construído, ela virá abaixo.

A Torre dos Traumas

Composta de dores e mágoas, a primeira torre se mostra quase indestrutível. Repleta de lembranças, finca suas bases no passado e o resultado no presente. Dentro dela estão todos que impedem o passado de permanecer onde deveria: no passado. Dentro dela estão os inseguros, vacilantes, incapazes e indecisos. Mas nenhum desses adjetivos visa diminuí-los, mas mostrá-los tais como vêem a si mesmos: inseguros para recomeçar, vacilantes para dar novos passos, incapazes de seguir em frente e indecisos quanto à própria capacidade.

Esquecidos de observar a constante mutação da natureza à sua volta, se prendem a comportamentos padrões que visam protegê-los de qualquer mudança de atitude, e permanecem repetindo que a experiência os ensinou ou a vida os fez assim. Eximem-se da responsabilidade sobre a própria vida e aceitam resultados previsíveis apenas para não correr riscos.

Escondidas atrás das paredes de seus traumas passados e da pena daqueles que cruzam seu caminho, essas pessoas permanecem justificando o presente através de suas memórias e à custa do próprio futuro. Impedem-se de ser mais verdadeiras consigo mesmas, com suas atitudes e com o próprio caminho, vivendo no dia a dia de uma rotina cômoda e, por isso mesmo, limitante.

Existem traumas de todos os tipos e cada um deles constrói a mesma torre. Nela colocamos tudo que vivemos, como base para o que não desejamos mais e, dessa forma, justificamos atitudes, loucuras, medos e incertezas.

Não seguiremos à direita, porque quando por ela caminhamos, tropeçamos numa pedra; não amaremos ninguém porque alguém nos traiu; nos comportaremos como neuróticos medrosos porque sofremos perdas; nunca confiaremos em determinada pessoa porque um dia ela se comportou dessa forma, etc., etc., etc.

As listas de desculpas são infinitas. No entanto, não passam disso: desculpas.

Permitir que os fatos passados determinem o nosso presente e, conseqüentemente, nosso futuro, é a construção de uma torre baseada no medo, na fraqueza e no comodismo. Ela é extremamente confortável, posto que desperta a pena e a simpatia alheias. Desperta a certeza de que as pessoas compreendem sua necessidade de proteção e desejarão protegê-lo. Mas isso significará adicionar mais tijolos à já sólida construção. E, enquanto preocupam-se em assistir ao filme repetido dos sofrimentos antigos, enquanto interessam-se por continuar despertando a compreensão dos espectadores eventuais, a tempestade se aproxima...


A Torre da Espiritualidade

Um caminho de buscas e encontros espirituais. Nossos anseios são preenchidos pelos conceitos metafísicos descobertos. Um mundo de segredos, de códigos e de práticas se abre à nossa frente. Nos tornamos conscientes de que, a cada ritual praticado para modificar nosso interior, nos aproximamos mais e mais de uma transcendência que o restante da humanidade – coitada! – sequer pode sonhar. Aos poucos, esse caminho se mostra tão perfeito e nos torna pessoas tão melhores que precisamos dividi-los com os outros. Passamos então a angariar discípulos, criar associações, dar palestras e cursos. Todo nosso caminho se volta a guiar pessoas.

Algumas vezes, alguns dos que nos procuram questionam nossos métodos, caminhos, posições e posturas. Curiosamente eles colocam perguntas que parecem ser acusações veladas. Sentimo-nos injustiçados pelo tanto que os ajudamos e pelo fato que, ainda assim, eles insistem em não retribuir. Em outras vezes, amigos próximos ou pessoas que trilham caminhos semelhantes, colocam em xeque nossos posicionamentos e conselhos, argumentando não verem aplicarmos os mesmos em nossa vida. Novamente, arvorando-nos em nossos conhecimentos e estudos, colocamos inúmeros motivos pelos quais todos estão errados.

No entanto, bastaria um olhar em nossa vida para ver as ilusões que estamos nos impingindo. O que ensinamos, não colocamos em prática. O que estudamos, não conseguimos aplicar. Na aparência de “supremas autoridades” nos escudamos, para não precisarmos de justificativas. Os discípulos assistem ao espetáculo da tranqüilidade enquanto que, nos opositores ou nas pessoas próximas, descontamos nossas frustrações. Por mais que a capa da invisibilidade que desenvolvemos disfarce nossos defeitos e nossas idiossincrasias, que nos recusamos a trabalhar e integrar, esses tumores alimentados pelas células cancerosas de nossos medos continuam se multiplicando. E assim os trovões, ao longe, podem começar a ser ouvidos...


A Torre da Perfeição

Dessa torre, apenas um incômodo interior, uma sensação de vazio, de torpor diante da vida, pode detectar a existência. É quase como que um aperto constante no peito, a denunciar que algo está errado nessa vida perfeita. Exatamente por ser tão pouco visível, é uma das mais difíceis de destruir conscientemente. Quem está de fora, nos inveja pelas conquistas que tivemos: o emprego certo, o casamento certo, os filhos certos, a casa certa, o status certo. Qualquer um que nos olhe, verá apenas o que existe de bom e maravilhoso na vida que temos. Mas ninguém irá sentir (ou perceber) aquele aperto no peito que dia e noite nos incomoda.

Tenha sido por acaso ou fruto de um longo trabalho, a vida construída é admirada e faz de nós o orgulho de nossos pais. A maioria das pessoas nem entenderiam se falássemos ao discorrer sobre a busca de um sentido da vida, acreditando que não tivéssemos porquê reclamar sendo que as necessidades visíveis estão preenchidas.

No entanto, a sensação de desconforto permanece e nosso mundo perfeito parece não combinar em alguns aspectos. Mesmos que as cores e as posições pareçam corretas, algo nele desvirtua a perfeição aparente. Algo nele nos remete ao frio imenso que reina num canto escondido de nós. E, de tanto olharmos, num determinado momento a resposta nos vem, tal qual o som de um trovão: falta vida. Falta ali a nossa vida. No quadro que pintamos e mostramos ao mundo, não estamos presentes em essência. Apenas nossa máscara encara os passantes, nos olha de volta no espelho e convive com os presentes. Os relacionamentos amorosos, pessoais, profissionais, obedecem aos limites impostos por ela. Optar por permanecer mascarado, mesmo reconhecendo a insatisfação advinda disso, é aceitar a estagnação em prol do comodismo e, enquanto isso, o vento torna-se a cada momento mais violento, e o som do trovão mais forte...

A Libertação

Cai a tempestade.


Trovões ribombam de forma ensurdecedora. Ventos parecem querer nos arrancar do lugar. Receosos, desejamos nos esconder da fúria da natureza. Porém, hoje, as vítimas somos nós: nós e nossos medos, nossas fraquezas, nossos traumas, espiritualidade e perfeições. Debaixo da cama, dentro da torre construída com tanto empenho, sentimos seu tremor. Seus tijolos já não passam tanta segurança e suas estruturas parecem prestes a ruir. O temporal aumenta de intensidade. Um raio, mais forte e brilhante que os outros, corta o céu com destino certo: a nossa torre. Ele acerta o topo do nosso orgulho, dilacerando nossas defesas e nos atirando para fora da nossa zona de conforto. Caímos feito sacos de farinha no chão, indignados por sermos tão frágeis quanto, mais cedo ou mais tarde, descobrimos que somos. A chuva molha nosso rosto pela primeira vez em muito tempo. O vento castiga nossa face como há muito não fazia. O que fazer agora? Para onde ir? Sabíamos que um dia a natureza, interna e externa, iria se revoltar e nos forçar a busca de um novo caminho.

Não importa realmente como essa queda se dê. A própria estrutura dinâmica da vida não admite a permanência: viver é estar em constante mudança. Tentar ficar dentro de uma redoma, mesmo que construída com os melhores motivos (ou desculpas) possíveis, é estar contra o fluxo natural. Dentro de nossos corpos, diariamente, os órgãos se renovam. Da mesma forma, nossos atos precisam nos levar ao encontro à renovação, ao encontro a novas vidas, todos os dias.

A chuva, após a tormenta inicial, vai amainando aos poucos. Os raios cessam, os trovões já não podem ser ouvidos. Olhamos em volta e percebemos que podemos seguir para qualquer caminho, já que perdemos tudo que tínhamos. O céu permanece escuro, mas podemos pressentir a presença do sol. Ele está em algum lugar entre aquelas nuvens.

Está na hora de ir encontrá-lo.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O Eremita e a Roda da Fortuna



IX - O Eremita


Da luz do Eremita a nossa própria luz interior renasce, fitando seus olhos bondosos e seu semblante de quem muito viveu e muito tem a nos ensinar. O lampião ilumina seu caminho, fracamente até, se pensarmos numa noite escura sem lua, mas é o suficiente para que ele enxergue o próprio caminho e que se faça enxergar pelos outros. Suas roupas não são luxuosas, nem seu bastão é adornado, o próprio lampião é simples e poderia ser adquirido em qualquer mercado; os atributos do Eremita estão além dos olhos, é preciso enxergar sua alma para poder reconhecê-lo. Sua simplicidade é o retrato do que ele buscou: a essência. Em uma solidão auto-imposta, ele passou por um período de reconhecimento de si mesmo e de aprendizado pela observação e pelo silêncio interior. Vagarosamente, a solidão deixou de ser um martírio, para se tornar um benefício: ele aprendeu a apreciar a própria companhia.

Distanciou-se das preocupações cotidianas para que seu tempo estivesse ocupado em aprender as leis universais que rege cada um de nós. O Eremita abriu mão da vida em sociedade para que pudesse descobrir sua própria luz, longe das luzes artificiais das cidades. Seu caminho anterior encontra-se resolvido, por isso ele não sente a menor necessidade de olhar para trás e ver o que deixou. Sua escolha foi feita de forma consciente, e por isso, não existem arrependimentos. O bastão o apoia, o protege (sempre pode ser usado como uma arma) e reforça sua integração com a terra, não deixando que ele passe a se sentir acima da humanidade por causa das descobertas que fez. Suas roupas são práticas, podem protegê-lo das interpéries e ao mesmo tempo não o impedem de caminhar livremente. O lampião é a luz que ele próprio alimenta, sem que sua inteligência esteja a serviço essa luz apagaria rapidamente, e isso nos mostra uma lição: não existe luz eterna, qualquer que seja ela precisa ser alimentada conscientemente.

Seu desafio consiste em não criar falsas imagens de um Eremita e mergulhar na imitação do que não tem relevância: a aparência, as roupas, o bastão, o lampião. Vestir-se como um não efetua nenhum tipo de transformação, a luz que alimenta o lampião vem de dentro. Além disso, buscar um isolamento literal da sociedade não é imperioso, já que a mensagem é não deixar que as preocupações da sociedade impeçam que haja espaço para que floresça a essência da sabedoria. E por último, é preciso aprender a conviver com a solidão, de forma que ela não se torne sua única companheira - fazendo de si mesmo um ser arredio à companhia dos outros - ou pior ainda, que a procure como uma fuga a um feroz sentimento de inadequação em relação aos outros. Vestir capas para acobertar esses qualquer um desses problemas não os solucionará, apenas fará com que o tempo faça-os mofarem e cheirarem mal.

Utilização Prática: A vida lhe apresenta o caminho do aprendizado. Ele pode até mesmo se apresentar como as três vias da Cabalá: a aprendizagem pelos livros, depois pela orientação de um guia e por último a experiência direta da união extática com Deus. Entender essas fases, para não perder-se em preconceitos é fundamental:
1-A aprendizagem pelos livros - quando falamos de aprender a partir dos textos, em momento algum é desprezado a sabedoria interior, mas para que possamos abrir e expandir nossa mente o caminho dos livros e das experiências dos outros pode nos abrir indagações que demoraríamos um tempo muito maior para assimilar.
2- Orientação de um guia - O preconceito pode fazer com que muitos desejem pular essa parte, mas é importante esclarecer que temos "professores" ou "guias" em todo tempo de nossa vida. Podemos aprender ouvindo de um trauseunte na rua uma frase perdida que nos toque e faça brilhar uma luz em nosso interior. Conversar e trocar experiências com pessoas mais vividas e/ou mais velhas também são fontes inesgotáveis de saber, não é preciso que se aceite a experiência alheia literalmente, mas ouvi-la pode nos trazer pontos de vista não imaginados de uma situação vivida. Saber ouvir, além de discutir e filtrar o que se ouve, faz parte do processo do aprendizado que leva a sabedoria.
3- União extática com Deus - É importante não abrir mão desta última, independente da religião seguida (ou mesmo da falta dela), já que ela significa a união com o Deus interior.
A chama que precisa ser acesa, e alimentada, é a nossa centelha divina. E essa mensagem está sendo claramente apresentada em seu caminho. Enxergá-la, entendê-la e aplicá-la faz parte do processo de aprendizado que o Arcano veio lhe trazer.

X - A Roda da Fortuna

Gira o mundo e com ele a vida, analogia perfeita para a Roda da Fortuna. Quem está em cima, logo estará embaixo. O que sobe tem que descer. O poder é ilusão passageira e a sabedoria nos mostra que o destino segue inexorável para aqueles que seguem em sua vida na superfície. Um dia após o outro, tomando decisões sem conhecer as motivações interiores.

Vemos na Roda a figura de uma mulher vendada (alusão a Justiça) que retarda a subida de um homem, outro rapaz acaba de ser alçado para fora do poder e se encontra em queda enquanto um terceiro está no chão, esperando o momento em que puder escalar a roda novamente. Dessa forma, todos ali são regidos pela mulher que não os vê, são todos iguais em sua indiferença e, portanto fáceis de manipular. Completamente inconscientes, eles se preocupam apenas com o status atual. Cada um segue tal qual fantoches, sem perceber que não são livres e nem estão fazendo escolhas, apenas se deixam levar pelo fluxo da vida. O único que sorri e permanece além de todo esse sofrimento é o garotinho que se encontra acima da roda. Ele não depende de seu movimento, porque suas decisões vêm do mais profundo do seu ser. Ele não é regido, mas rege.

A Roda da Fortuna mostra as mudanças que todos passamos na vida, mas coloca-as fora de nós, onde em vez de agirmos em nosso caminho, apenas reagimos aos estímulos encontrados. É preciso mirar o garotinho fora da roda, e compreender que as mudanças tem que vir de dentro de nós para fora, de forma que não nos entreguemos a uma rotina massacrante.

O grande desafio desse Arcano é fazer as próprias mudanças, buscando a consciência em cada ato, desligando o piloto automático para que possamos verdadeiramente dirigir a nossa vida.

Utilização prática: Quando este Arcano aparecer, prepare-se para mudanças: elas vão ocorrer. Procure nessa oportunidade refletir em que ponto você buscou mudanças ou se elas vieram ao seu encontro pela entrega que fez da própria vida nas mãos do destino. Investigue as mudanças, porque elas podem abranger vários aspectos da sua vida. E aproveite também refletir como é sua reação as essas modificações, o quanto sofre pela perda da estabilidade alcançada e como lida com o novo na sua vida. É preciso mudar, para que a vida continue. E se não mudamos sozinhos, a vida muda por nós.