domingo, 13 de fevereiro de 2011

Sapatinhos Vermelhos - A Sacerdotisa Mutilada


Por Ana Marques

Nenhuma busca é em vão. Somos todos buscadores de sonhos, de conquistas e de realizações. Nesse caminho, porém, inseridos numa sociedade castradora e formadora de uma homogeneidade doente, é comum irmos abrindo mão de aspectos importantes de nosso eu e da nossa capacidade crítica em prol de uma melhor aceitação perante aos outros. Como quem anda a esmo numa floresta desconhecida e ameaçadora, pedaços de nós mesmos vão sendo arrancados pelos galhos cortantes e deixados para trás, até que cheguemos mutilados ao encontro da civilização. Inteiros não seríamos aceitos, fora de nós aquelas partes nem mesmo parecem fazer sentido, e calcados nesse raciocínio deixamos que essas partes morram à míngua.

No entanto a floresta é imaginária, embora a mutilação seja real. Nossos pedaços permanecem esperando por nós, aguardando que os resgatemos e não joguemos mais a culpa de nossa incapacidade de assumir quem realmente somos em galhos fantasiosamente cortantes. A Sacerdotisa é o arcano que primeiro ilustra a busca interior e a compreensão de si mesmo, o reconhecimento do eu e dos aprendizados que temos na vida. Quando mutilamos esses aprendizados e renegamos partes de nós mesmos, profanamos nosso templo interior - o reduto da Sacerdotisa - em prol de uma aceitação que nos deixa dependentes do modus vivendi externo. Para ilustrar esse processo veremos o conto Sapatinhos Vermelhos, de Hans Christian Andersen.



"Era uma vez uma menina que morava na floresta e um dia resolveu fazer sapatos para si mesma. Recolheu pedaços de pano vermelho aqui e ali e costurou sapatos vermelhos para si. Sentia-se linda com eles, porque sua cor forte a deixavam feliz. Saltitava entre as árvores e mesmo quando a comida era um problema, sentia-se confiante por causa da beleza de seus sapatos e de sua capacidade de fazê-los.
Um dia, uma boa senhora a viu sozinha e apiedou-se. Chamou-a e convidou-a a entrar na carruagem para viver com ela, em que a senhora cuidaria de seu bem estar e a menina lhe faria companhia. Tentada pela proposta de não mais precisar passar fome e poder ter uma vida mais confortável, a menina aceitou o convite e entrou na carruagem dourada.
Chegou na bela casa da Senhora e foi levada a tomar banho, e depois de penteada e vestida, deram-lhe belos sapatos pretos para calçar. Inconformada, perguntou pelos sapatos vermelhos e foi-lhe mostrado o fogo onde seus antigos pertences - inclusive os sapatinhos - ardiam, numa destruição sem volta.
A menina chorou a perda dos sapatos porque ela os amava. Mas a cada dia que passava, chorava mais por outras coisas: pelo fim dos dias saltitantes, das risadas altas, da cantoria despreocupada. Agora era preciso pisar leve e falar baixo, porque qualquer movimento brusco desagradava a Senhora e seus empregados. A menina vivia tentando se controlar, buscando se adequar ao papel que esperavam dela. Ela gostava das coisas bonitas que lhes davam, mas sentia falta de algo e não sabia precisar o quê.
Ao seu aproximar o dia de sua primeira comunhão e a Senhora a levou para comprar um par de sapatos novos para a ocasião. Quando chegaram ao sapateiro, logo na entrada, a menina viu um par maravilhoso de sapatos vermelhos. Eles estavam lustrados e brilhavam tanto que seu coração pareceu parar por um instante, porém ela sabia que a Senhora jamais permitiria sapatos como aquele. O sapateiro, vendo seus olhos desejosos, sugeriu inocentemente para a Senhora: "Por que não leva os sapatos da vitrine? São bonitos e estão perfeitamente lustrados. Dignos de uma moça como sua filha". A Senhora, que não enxergava bem, aceitou a sugestão de bom grado e enquanto os olhos da menina brilhavam de contentamento, os do sapateiro piscavam maliciosamente.
No dia de ir à missa, a menina calçou maravilhada os sapatos e saiu com a Senhora em sua carruagem. Quando desceu em frente à igreja, um soldado veio ao seu encontro e disse "Que belos sapatos vermelhos!" e batucou levemente neles uma musiquinha engraçada que deu cócegas nos pés da menina. A menina deu volteio e riu "Não são mesmo lindos?". Porém não conseguiu parar. Ao iniciar o passo de dança, os sapatos ganharam vida própria e sairam dançando alegremente, levando-a com eles. A Senhora, horrorizada, gritava para que ela parasse, mas era impossível deter os sapatos. Por fim, com a ajuda do cocheiro, conseguiram arrancar os sapatos da menina e a Senhora a proibiu de usá-los novamente, guardando-os no alto de uma prateleira em seu próprio quarto.
A menina, mesmo com a experiência assustadora de não poder parar de dançar, ansiava pelos sapatos vermelhos. Ele pareciam chamá-la e nada mais parecia fazer sentido se ela não pudesse calçá-los novamente, por alguns minutos que fosse. Um dia a velha Senhora caiu doente e enquanto todos se acercavam de sua cama, a menina sorrateiramente tirou os sapatos da prateleira e saiu da casa. Mal podia controlar a excitação de calça-los novamente e ao fazê-lo saiu dançando alegremente e por uma ou duas horas foi perfeitamente feliz. Mas a menina começou a ficar cansada, queria parar de dançar e voltar para casa, e ao tentar parar, percebeu que seus pés não lhe obedeciam. tentou novamente e nada. Não havia como parar de dançar. Nesse momento passou pelo Soldado de cabelos vermelhos e ele sorriu dizendo "Que belos sapatos vermelhos!" e rodopiando sem parar ela o deixou para trás. Dias e noites se passaram, a menina sentia a vida esvair-se de seu corpo por não poder alimentar-se, dormir ou beber um pouco de água; passou um dia em frente a casa da velha Senhora e percebeu que ela tinha partido desse mundo, mas nem mesmo um adeus pode dar e seguiu dançando. Um dia estava dançando em frente a uma igreja e tentou lá entrar, mas um anjo veio e lhe deu a triste notícia de sua sina: 'Noites e dias vai percorrer, essas florestas e bosques da manhã até o alvorecer, nenhum momento poderá parar, por esses sapatos amaldiçoados usar, e aqui também jamais poderá entrar, por esses sapatos amaldiçoados usar. Segue seu caminho, até que o teu destino, se cumpra completamente: perder carnes e peles, até que apenas seu esqueleto reste, dançando nesses sapatos malditos.'. A menina tentou implorar, mas os sapatos a levaram para longe dali. Já desesperada, cansada de tanto dançar e chorar, chegou a casa do carrasco da vila. Implorou a ele que a ajudasse a tirar aqueles sapatos, o que ele tentou sem sucesso. Cortou as correias, mas nada os fazia sair dos pés da menina e era preciso amarra-la para que não saisse dançando durante as tentativas. Sem mais opções, a menina implorou que ele cortasse seus pés fora, porque preferia viver aleijada do que naquela dança sem fim que a mataria sem demorar. Após muito relutar, o carrasco concordou e depois que cortou os pés da menina, os sapatos - e os pés - saíram dançando pela floresta.
A menina viveu aleijada para sempre: sem saltitar, sem cantar, sem rir. E nunca mais quis saber de sapatos vermelhos."

Temos aqui um personagem central, a menina, e alguns coadjuvantes de peso: a Senhora, o Sapateiro, o Soldado de cabelos vermelhos, o Anjo e o Carrasco. Cada um deles tem papel preponderante na história da menina, e na forma como ela passa de criança saltitante a menina aleijada. Não é um processo moral, embora muitos possam enxergar por esse lado, que a leva de um extremo a outro, mas um processo de perda da conexão interna.

Existe uma floresta, que por muitos poderia ser considerada ameaçadora, mas que é o lar da Menina. Ela busca seus alimentos, resguarda-se do frio e da chuva, brinca, e constrói sua pequena vida nesse lugar. Ali ela está integrada consigo mesma e enfrentando as dificuldades, vive feliz. Sua vida é tão plena, que ela dá a si mesma um maravilhoso presente: um par de sapatos vermelhos. Por serem feitos a mão – e com pedaços de tecido que ela vai conseguindo – eles contém o que há de mais puro em sua essência: o reconhecimento de sua capacidade e liberdade. Nesse momento, enquanto resguarda-se do mundo exterior, a Menina é como a Sacerdotisa do Tarô: seu conhecimento é inteiro sobre si mesma, aprende de fora para dentro, guarda-se dentro da floresta – da mesma forma que a Sacerdotisa guarda o essencial atrás das colunas do Templo Interior.

A Alta Sacerdotisa, The Old Path Tarot

Porém, uma armadilha surge no caminho da Menina: a carruagem dourada. É uma armadilha porque visa, primeiramente, colocar a menina numa posição inferior: a posição de necessitada. Sem conhecer o rico mundo interior da Menina, a velha Senhora somente pode ver o exterior que lhe parece pobre e carente de recursos, vê a Menina como alguém que precisa ser recuperada da uma vida selvagem e reintegrada à vida em sociedade. Iludida pelo brilho, a menina confunde conforto com felicidade e entra na carruagem dourada, esquecendo de que mesmo de ouro, uma gaiola continua sendo uma gaiola. Saindo de seu mundo, selvagem e pessoal, ela adentra o mundo social, do protocolo e da homogeneidade; dessa forma, a primeira providência é torná-la limpa, e o segundo é retirar da Menina seu mais forte laço consigo mesma: os sapatos vermelhos. Ela os havia feito, depositando neles toda sua feminilidade, alegria, vivacidade e prazer. Ao vê-los queimados, uma parte de si deixa de existir. Ela é invadida em seu espaço sagrado, mas ao invés de se rebelar ela aceita porque vê a aparência de prosperidade no local e acaba por acreditar que aquela fartura iria contagiá-la e fazê-la inteira novamente.

Um a um seus pequenos hábitos, que a tornavam tão feliz, vão sendo cortados: ela não pode pular, nem cantar, nem rir alto. Vagarosamente, hábitos novos vão lhe sendo impostos e cobrados: ir a igreja, ficar em silêncio, calçar sapatos pretos. Na necessidade de se adequar ao novo mundo à sua volta, e tentando ser aceita, ela vai permitindo que essas pequenas rupturas aconteçam. Rupturas essas que vão deixando feridas na alma da menina, fazendo dela uma Sacerdotisa sem lar, sem colunas para defender e sem a sabedoria intrínseca. Com a autoconfiança abalada, ela vai aos poucos se entregando a um modus vivendi que não lhe pertence, que lhe tolhe a liberdade e desconecta seu corpo de sua alma. A menina se cala, e em seu silêncio sacerdotal, vai colocando as sementes de frustração que farão com que ela perca o controle de si mesma ao se deparar com um novo par de sapatos vermelhos.



O Arcano 2 não é ativo, em sua essência. Ele busca um conhecimento que visa compreender o que está fora, de acordo com a percepção interna. Sendo assim, sua tendência é a de experimentar, ou seja, levar para dentro para adquirir experiência. Nada em sua simbologia denota uma capacidade de lutar contra os profanadores, mas de convertê-los ou – no máximo – afastá-los. Mas ela pode ser enganada. E enganada pela aparência da casa grande, do luxo, da comida fácil e de uma cama quente, ela se deixa enredar entre as proibições e pelos prazeres. Ela se deixa seduzir pela pretensa companhia, pela idéia de ter alguém a velar por ela e de não estar só. Ela decide experimentar essa vida, e apega-se a ela, mesmo significando uma insatisfação constante da qual nada consegue livrá-la. Caso ainda estivesse conectada a si mesma, caso ainda confiasse em seus instintos, ela perceberia rapidamente o alto preço que a sociedade estava lhe cobrando para aceitá-la em seu seio. Se estivesse atenta aos avisos de perigo no caminho, ela perceberia que o aprendizado ali era sobre o predador, e não sobre a conquista da felicidade. Porém, ela não pode mais ver, porque seus olhos internos estão cegos, não acredita mais em sua própria capacidade de cuidar de si mesma. A dor aumenta, e algo dentro da menina se quebra: o mundo externo da Sacerdotisa precisa necessariamente refletir o seu mundo interior, e quando eles entram em divergência, a unidade deixa de existir e a Sacerdotisa perde a referência: o Templo Sagrado foi violado.

Perdida em reflexões que não a fazem ver que está tentando se encaixar numa forma que não é de seu tamanho, a ira causada pela dor apenas a deixa mais vulnerável e sem armas para reconhecer novas armadilhas, fazendo com que ela caia na próxima: os falsos sapatos vermelhos.

Os primeiros – que ela mesma tinha feito – possuíam parte da sua alma e refletiam quem ela era e como se via; esses outros sapatos – feitos para atrair a cobiça – tinham em si a semente da perdição. Ao vê-los, confundiu o objeto com o sentimento, e acreditou que ter sapatos vermelhos tirariam dela a dor e fariam com que fosse novamente livre. Imersa na necessidade de ser aceita na sociedade que não a refletia, ao mesmo tempo que buscava algo que a ligasse à sua vida pregressa, ela se deixou encantar pela aparência, pela idéia de possuir qualquer coisa que a lembrasse da felicidade perdida. Porém, os novos sapatos, imbuídos que estavam de uma simbologia que a eles não pertencia, despertaram nela uma avidez desconhecida. O sapateiro, aqui uma clara representação do lobo em pele de cordeiro, percebe esse sentimento da menina e a ajuda a enganar a velha Senhora para que a Menina possa comprar os sapatos. Ele é a mão que estica o fio invisível para que a Menina tropece. A velha Senhora, que não pode ver antes que a menina não era necessitada, não pode ver agora o perigo que a rondava, e visando apenas o conforto e adequação, deixa que o perigo se acerque. A Menina por sua vez, vítima ativa nessa história, aceita a felicidade fácil e embrulhada para presente: compra os sapatos.

Criando uma miragem de felicidade, a menina calça os sapatos pela primeira vez, o soldado – personificando aqui a natureza instintiva que vem mostrar o real significado dos mecanismos de fuga – toca no sapato e a melodia faz vir a tona a verdadeira característica do objeto: retirar a vontade própria. Os sapatos tomam conta dos pés da menina e a fazem dançar descontroladamente. Horrorizada com seu comportamento impróprio, a velha senhora limita-se a retirar os sapatos à força, proibindo seu uso sob qualquer circunstância.

O tiro sai pela culatra. A Sacerdotisa – apesar de passiva como colocado anteriormente – necessita de respostas, e não de ordens. Tonta pelo sentimento de euforia dado pelos sapatos e sem compreender os motivos que da proibição, não consegue perceber que os sapatos não lhe deram a inteireza desejada e a dominaram mais que a velha Senhora, e passa a sentir aumentar a necessidade de calçá-los novamente. Vê neles aquilo que não encontra mais dentro de si – uma alegria extasiante – e não diferencia esse sentimento borbulhante, e destrutivo, do antigo sentimento de tranqüila liberdade. A Menina se deixa fascinar e aguarda o momento em que poderá experimentar tudo de novo, passando a viver para isso. Ele chega quando a velha Senhora adoece e o único obstáculo existente entre a Menina e os sapatos deixa de ter força. Aproveitando-se da fraqueza da velha Senhora, a menina pega os sapatos e corre para a liberdade. Ou melhor, para uma pretensa liberdade.



Mesmo com todo o fulgor da dança, mesmo com todas as belas paisagens que ela pode ver, nada mais está a seu alcance. Logo a menina percebe que é prisioneira de uma liberdade fictícia, que os sapatos não permitem que ela tome decisões, não a deixa aproveitar o que está lá fora e mesmo a dança passa a ser um martírio, ao passar horas e horas exaustivamente executando-a. Tornando-se uma refém dos artifícios usados para se sentir dona de seu própria espaço, a menina vê-se engolfada pelas dores de não controlar mais nenhuma de suas reações e não ter mais a opção de satisfazer qualquer necessidade, por mais básica que seja. É a Sacerdotisa presa num Templo inexistente, sem conexão consigo mesma, e incapaz de escapar dele.



Dançando sem parar, sem poder comer ou descansar, a menina segue o caminho desejado pelos sapatos. É expulsa pelo Anjo, porque a força para redimir-se seria lutar com a dominação em que se perdeu, e aceita um destino trágico considerando-se amaldiçoada. Deixando-se enredar, a menina se entrega nas mãos do Carrasco da vila, permitindo que ele corte seus pés – perdendo completamente a possibilidade de ir aonde e quando quiser – e mutila a Sacerdotisa que existe dentro de si. Antes o templo estava violado, mas a incapacidade de ação efetiva do Arcano – refletida na menina - acaba por permitir sua destruição. Estão ambas presas agora, para sempre.



Fonte: Mulheres que correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Éstes.
Imagens retiradas do filme "Sapatinhos Vermelhos", dirigido por Michael Powell, Emeric Pressburger. Roteiro de Micheael Powell (inspirado no conto de Hans Christian Andersen).

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A Pequena Vendedora de Fósforos

O Louco e a Fuga da Realidade

Por Ana Marques

Hans Christian Andersen ficou famoso por seus contos infantis, alguns de final trágico ou triste e todos contendo uma lição de moral (cristã) bastante evidente. Nelas podemos encontrar, se procurarmos, os Arcanos do Tarô e seus variados aspectos, as inúmeras faces sob a forma, por vezes misteriosa, de heróis e heroínas que moram no imaginário popular. Num dos mais belos contos de Andersen, encontramos o Arcano 0 (ou 22) – O Louco – fugindo da vida que leva e enganando a si próprio. Eis a história da pequena vendedora de fósforos:

imagem: Mickey89Eli


“Uma pequena menina andava pelas ruas geladas. Era véspera de Natal e as pessoas estavam em suas casas para comemorar essa data especial. Naquele dia, ninguém comprara um fósforo. Todos estavam ocupados em arrumar árvores, embrulhar presentes e fazer a ceia.

A menina, que há muito perdera os sapatos, andava descalça sobre a rua gelada. Tentava desajeitadamente oferecer fósforos para aqueles que, hora ou outra, passavam apressados pela rua. Porém, apesar de seus lindos cabelos loiros e do olhar febril, os passantes não a viam, preocupados que estavam com a própria vida.

Ela seguia em frente, não tinha coragem de voltar para casa sem ter ganho nenhum dinheiro porque sabia que seria castigada. Cansada, sentou-se no degrau de uma escada, numa viela escura. Estava enregelada, e não tinha um bom casaco (ou meias e sapatos) para se aquecer, apenas seus fósforos. Olhou para eles e pensou que, se seria castigada de qualquer forma, pelo menos não passaria tanto frio. Decidida, acendeu o primeiro pensando em tentar acender uma pequena fogueira. Entretanto, quando a chama brilhou, seu olhar perdeu-se dentro da imagem de sonho que viu no brilho do fogo: uma grande, bela e enfeitada árvore de natal, daquela que tinha sonhado sua vida inteira. A árvore resplandecia e a menina olhava encantada para ela. Havia fogo na lareira e o frio tinha ido embora. Esticou a mão para tocar a árvore e nesse momento... o fósforo se apagou, levando todo o sonho embora.

A menina ficou desolada, tinha voltado à escuridão da rua e ao frio da noite. Resolutamente acendeu outro fósforo e nova imagem se apresentou: um grande peru assado com maçãs estava sendo colocado na mesa, havia nozes, doces e uma série de pratos que ela nem mesmo saberia nomear. O cheiro estava delicioso e ela se apressou para provar a comida, porém não foi rápida o bastante... o fósforo se apagou levando seu sonho com ele.

Imediatamente acendeu outro e para sua surpresa a chama mostrou-lhe uma pessoa. Sua querida avó, a única pessoa que havia realmente a amado e tratado com bondade – mas que já havia partido desse mundo – começou a se aproximar dela. Desesperadamente, a menina começou a acender um fósforo atrás do outro para não perder essa imagem. A avó chegou perto dela e sorriu, a abraçou ternamente e chamou para ir embora com ela. A menina sorriu verdadeiramente em anos: ela iria com a avó, viveria aquele sonho onde não havia frio, nem dor e nem fome. Onde alguém a amaria realmente. Agarrou-se a avó e foi subindo com ela em direção ao céu estrelado, para onde ela ia sempre seria natal, sempre haveriam festas e presentes, e ela seria amada de verdade.



imagem: Mickey89Eli

No dia seguinte, pessoas que passavam encontraram o corpo gelado da menina encostado na escada. Apesar da pena de ver uma criança tão nova sucumbir daquela forma, todos notaram o sorriso de felicidade e a expressão de paz que ela trazia no rosto e se perguntavam com o que ela sonharia antes de morrer.”


A menina, personagem da nossa história, anda a esmo pelas ruas e tenta, desoladamente, chamar a atenção das pessoas que a ignoram. A sua carência excessiva de uma figura que a guie faz com que ela se torne um problema para a sociedade local, por isso todos passam por ela fingindo não vê-la e não perceber sua situação desesperadora. Todos representantes do Louco: mendigos, crianças de rua, bêbados, sem teto; quem realmente olha para eles?

Como o Louco, ela é inocente e inexperiente, e por isso não tem noção das conseqüências de seus atos: prefere ficar escondida numa escada gelada a voltar para casa. Seu instinto de sobrevivência – simbolizado no Arcano pelo cachorro – a abandonou, em algum momento de sua vida ela perdeu-se dele. A carência de qualquer afeto, faz com que ela se desligue de si mesma, e mesmo os mais básicos instintos de proteção parecem inexistir: ela não procura um lugar quente ou ao menos fechado, não junta gravetos para poder fazer uma fogueira. Simplesmente acende um fósforo, e desperdiçando a chama da vida, inicia sua fuga.

A Fuga da Realidade



O Louco possui a capacidade de passear e subverter todos os demais Arcanos: ele é o grande viajante do tarô. Não existe uma trajetória linear quando ele está envolvido e sua tarefa é mostrar novos ângulos, aprender o impensável das formas mais inesperadas possíveis. No entanto, da mesma forma, ele é aquele que de tanto caminhar, pode cair em círculos viciosos. Ingênuo, pode acreditar nas mentiras do Mago. Imaturo , pode ignorar os sábios conselhos da Sacerdotisa. Rebelde, pode passar ao largo da autoridade da Imperatriz – deixando assim de ser nutrido – e do Imperador – perdendo a oportunidade de reconhecer limites. Os seus limites e os dos outros. Irresponsável, perde a capacidade de compreender os ensinamentos que o Hierofante pode disponibilizar. Não possuindo a base inicial, o Louco se perde em suas próprias possibilidades e, ao invés de trilhar um novo caminho, acabar por não trilhar caminho algum.

A menina é o retrato disso: não tem pais que velem por ela, sua avó (que a amou) já se foi. Ela teme o mundo adulto, por isso tenta vender-lhes fósforos – a chama da vida – mas não consegue chamar-lhes a atenção. Na realidade, nem mesmo poderia. A chama que ardia internamente nela se apagou e pessoas assim tendem a passar despercebidas. A chama externa não é forte o bastante, não conseguindo nem mesmo durar tempo suficiente para que a menina possa fugir de maneira satisfatória da própria realidade.

Os fósforos são acendidos, e se apagam rapidamente, porque o fogo produzido não é alimentado – vida se alimenta de vida – e a menina esqueceu (ou deixou de lado) essa premissa básica que poderia ter significado a sua sobrevivência. A cada chama acesa, ela foge um pouco mais. Ela não deseja salvar-se, apenas sonhar. Assim como os loucos que vemos nas ruas ou em manicômios, é mais fácil ser Napoleão e colocar a mão por dentro do casaco numa eterna pose imaginária, do que buscar a si mesmo. Para que buscar a solução para os problemas reais: na imaginação tudo acontece magicamente. A realidade exige comprometimento e disposição para deixar de ser ingênuo e aprender com os demais Arcanos. É preciso seguir a jornada para salvar-se da morte certa. Porém, ela prefere sentar-se na escada gelada e acender os fósforos.

A vida, mesmo que escapando rapidamente de suas mãos, mostra-lhe sonhos dourados: a árvore, o peru, a avó. Ela sonha com a beleza, com a satisfação e com o amor. Ela deseja, mas não busca alcançar. Desesperada para continuar sonhando, não se importa em desperdiçar toda chama que possui consigo, e quando vê a avó se aproximando sucumbe inteiramente. Ela se entrega ao sonho e abdica completamente da realidade. Como as pessoas que vivenciam as armadilhas dos sonhos inalcançáveis e realidades frustrantes, ela sente que é infinitamente mais agradável sonhar, mesmo que isso signifique matar a própria alma. Prisioneira das fantasias do Louco, a menina se entrega ao sonho sem concretização e deixa-se matar pelo frio.

O que não realiza, se exaure e o calor vai embora. Ela morre, mas seu sorriso mostra que está em paz: morrer é a última e definitiva fuga.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

A Força e O Enforcado

XI - A Força

A Força - Tarô de Marselha
Afrontar a natureza instintiva invadindo seus domínios, é pedir para ser devorado. É preciso coragem para enfrentar o leão e acalmá-lo. Necessário ter uma enorme força interior, para que a força bruta não se sobreponha e vença. A donzela ao lado mostra serenidade e, dessa forma, consegue estar perto da própria fera, olhá-la e abrir a sua boca para ver o que contém. Na cabeça da donzela está a leminiscata (o chapéu), que a coloca em contato com sabedorias universais. Ela não está dominando o leão, mas mostrando que é parte dele. Ela o deixa conhecê-la, senti-la e cheirá-la. Seus pés descalços estão em contato direto com a terra, na mesma terra que o leão pisa: eles são um só e estão descobrindo a força que essa descoberta possui. O desafio consiste em não tentar domar esse leão, símbolo dos instintos naturais, mas o de integrá-lo beneficiando-se de sua força sem, no entanto, condicioná-lo a um comportamento cortês que o descaracterizaria. O leão , que temos dentro de nós, é a nossa defesa, é aquele que nos avisa quando invadiram nosso território, quando estamos prestes a abrir mão de nossa vida, quando nos lançamos em neuroses que podem nos privar de nossa razão. Ele é o nosso sensor do perigo, porque possui um desenvolvido instinto de sobrevivência. Ele estuda, verifica, defende. Sem ele, seremos presas fáceis de nossos predadores. Sem ele seremos gatos sem garras, leões sem dentes, macacos sem agilidade e estaremos a mercê. É preciso conhecer e integrar a força instintual que trazemos em nosso interior. É imprescindível percebê-la agindo e escutar seus avisos e conselhos. Mas, além disso, é necessário preservá-la para que ela nos ajude a nos preservarmos.

Utilização prática: Um momento de poder chegou, o conhecimento de forças que não sabia existir em seu interior está disponível. É hora de abraçá-la e interiorizá-la, para que ela possa fazer parte de você e você fazer parte dela. Não tente dominá-la, coopere com ela. Deixe que essa força te impregne, que corra pelas suas veias e inunde suas células. Você vai precisar dessa força, deixe-a ser UNA contigo.

XII - O Enforcado

O Enforcado - The Sacred Rose
Uma parada obrigatória. Não há como evitá-la. Tenha sido por escolha, caminho ou por acidente, estamos impossibilitados de continuar. Pelo menos, durante um tempo. Nenhuma revolta surtirá efeito. Nenhum remédio, a não ser paciência, poderá ser utilizado. O Enforcado está preso pelo pé e com as mãos amarradas não se pode soltar. É preciso, portanto, olhar a vida sob outro ângulo e perceber novos aspectos. Deixar que a cabeça entre em contato com a terra, para que ela seja nutrida e possa germinar novas idéias, numa próxima fase. Permitir ficar observando. O número quatro, que o Enforcado faz com as pernas, é o número que espelha a concretização: ele poderá concretizar muito dos planos sonhados enquanto estiver nessa posição, mas é importante saber esperar o momento certo. O chão está coberto de flores, que mostra a fertilidade que a terra está ofertando. Uma das lendas sobre o Deus Odin, na mitologia nórdica, diz que ele dependurou-se ferido em Yggdrasil, por nove dias e nove noites, para ter direito ao dom da profecia. Da mesma forma, um período contemplativo poderá nos dar consciência de potenciais que temos e podemos desenvolver. O desafio consiste em aceitar o conhecimento que essa fase irá trazer, sem tentar espernear loucamente para sair dali. Pode-se partir a corda fazendo isso e, em conseqüência, quebrar o pescoço na queda. É preciso olhar profundamente para dentro de nós mesmos, do que nos levou por esse caminho, onde a corda esperava para nos prender o pé. Compreender para superar. Se ficarmos indiferentes, apenas esperando que o tempo passe, essa situação irá se repetir indefinidamente.

Utilização Prática: Deixe-se ficar parado. Deixe-se olhar a vida por ângulos diferentes. A vida o coloca em suspenso, para que observe seu próprio interior e descubra o que há nele. É preciso aceitar esse período de meditação, deixar que ele mostre as lições necessárias. As ações estão prejudicadas, nada começará ou se concretizará nesse período. Existem ervas daninhas que precisam ser identificadas, do contrário todo o jardim pelo qual está tendo tanto trabalho, perecerá.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A Força – A Cura do Instinto Ferido

Por Ana Marques

A floresta está escura e quase silenciosa. Caminhamos lentamente por ela enquanto procuramos incansavelmente. Ruídos esparsos nos sobressaltam e apesar da coragem com que nos investimos antes de adentra-la, nunca estamos completamente preparados para o que desconhecemos. Somos seres desprotegidos ali, a mercê de qualquer predador que nos resolver atacar. Não conseguimos distinguir o que é o vento movendo um galho, de um leopardo rondando sua presa.

Um rugido solitário soa ao longe...

Rapidamente seguimos nessa direção. Atravessamos os galhos cortando-os com o canivete. Temos pressa, temos muita pressa em chegar àquele som. Percorremos a floresta sem mais nos importarmos com os perigos que ela contém, nossa tarefa é urgente. Apuramos os ouvidos tentando ouvir novamente, mas os sonos se misturam nos confundindo. Estamos quase correndo tal nosso desespero por encontrar. Tanto corremos que quase caímos numa armadilha esquecida colocada por algum caçador. E paramos. A quase queda nos mostra que é urgente continuar a busca.

Tropeçando, desorientados, cansados e famintos continuamos a busca. Por um momento acreditamos perder as esperanças e então... Mais um rugido solitário.

Guiamo-nos por esse ruído. Passamos a caminhar devagar para não perder novamente o senso de direção. Mais um rugido e nos sentimos a cada momento mais perto.

Numa clareira avistamos a figura deitada de um leão. Chegamos até perto dele vagarosamente para que não se assuste. Paramos e deixamos que fareje o ar. Permitimos que se acostume ao nosso odor. Mais um tempo e nos aproximamos mais, até que podemos toca-lo. Sua cara mostra desconfiança e ao olharmos detalhadamente para ele podemos compreender: suas garras foram cortadas, seus dentes arrancados, a maravilhosa juba foi raspada e existem feridas por toda parte. O leão que buscamos foi destituído de sua força e poder. Seus símbolos foram vilmente alijados. Sua autoconfiança foi completamente minada. Olhamos esse triste espetáculo e nos olhos do leão lemos uma acusação clara. Ele sabe quem fez aquilo com ele: fomos nós.

“Os impulsos suprimidos e feridos são os perigos que ameaçam o homem civilizado: os impulsos não reprimidos são os perigos que ameaçam o homem primitivo”
Aniela Jaffé, Symbolism in theVisual Arts

Nosso leão está ferido. É preciso resgatá-lo e devolver a ele a dignidade perdida. É preciso curá-lo para que recupere a sua força. Para que recuperemos a nossa própria força.


Simbolismo Tradicional

Uma donzela, com um chapéu em forma de lemniscata (símbolo do infinito), está suavemente abrindo a boca de um leão. Seu rosto e sua postura são serenos, seus pés estão firmes no chão. O leão não parece amedrontado, mas enfeitiçado. A moça não buscou domesticá-lo ou subjugá-lo, apenas acalmá-lo. Eles estão apoiados um no outro, e é esse apoio mútuo que está permitindo o equilíbrio. A força foi conquistada amorosamente e ninguém precisou abrir mão de sua essência para tê-la.
É necessária muita coragem para enfrentar o leão. Muita ousadia para abrir-lhe a boca. Da mesma forma, foi inovador da parte do leão aceitar essa interferência, que não aconteceria se a jovem não tivesse conquistado sua confiança. A agressão não foi necessária porque abriu-se mão do domínio em prol da cooperação.
Vemos aqui uma clara aceitação dos aspectos indomados do inconsciente. Aniquilá-lo seria perder a própria essência e ser devorado por ele. Invadí-lo seria forçá-lo a nos ferir. Compreendê-lo é trazê-lo até nós. Conhecê-lo mostra que podemos exercer o controle, e dessa forma, promover uma real interação. A moça é terna, suave e persistente. Sem a persistência ela jamais teria se aproximado do leão. O leão é amoral, instintivo e ágil. E é seu instinto que permite a aproximação dela. Se olharmos a figura detalhadamente, veremos que ambos formam uma única e harmoniosa figura. A força bruta aqui não é vencida, ela é integrada.

A Bela e a Fera

O conto “A Bela e a Fera” tem encantado gerações de crianças e após a filmagem de Walt Disney houve um aumento significativo da importância desse conto. Numa de suas inúmeras versões, Bela pede uma rosa ao pai que a pega de um jardim num castelo aparentemente desabitado. Ao fazê-lo desperta a ira de seu dono: um leão. O Leão só permite que ele viva, se a filha viesse ao castelo e ficasse prisioneira no lugar do pai. Apesar de aparentemente aceitar, o pai pretendia despedir-se da filha e voltar para a fera. Mas a menina não aceita e volta em seu lugar. Após temer muito a fera, ela passa a se aproximar dela. Apesar de ser um leão, ele é gentil e delicado. O pai doente a obriga a se ausentar, e embora tenha prometido voltar logo, ela demora. Quando volta, vê que a fera está agonizando. Chora sobre seu corpo e beija-lhe os lábios, nesse instante a fera se transforma num belo príncipe. Ele conta que foi amaldiçoado e que apenas o amor poderia quebrar essa maldição, um amor que fosse mais forte que sua temível aparência. Eles se casam e vivem felizes para sempre.
Uma bela história. Mas, principalmente, uma história de magia e recuperação. Bela precisa vencer sua repulsa para se aproximar da fera e descobrir o amor. A fera precisa aprender a confiar para que sua maldição seja quebrada. O amor é a força transformadora que une duas naturezas aparentemente incompatíveis. Sem que esse amor seja descoberto e funcione como elo de ligação à fera morreria e Bela teria uma parte importante de sua história perdida irremediavelmente. E seria a melhor parte.
Embrenhar-se na floresta para buscar o leão que (acreditamos) irá nos devorar é um mergulho direto no inconsciente. Bela não vai disposta a vencê-la ou matá-la, mas a se entregar. Ela não quer ser mais forte ou mais esperta que essa força primordial, apenas vai ao seu encontro. Pensando encontrar a destruição, encontra o amor. E essa é a força que permite com que ela atravesse as barreiras sociais simbolizadas pela feiúra. Libertando-se de barreiras ela amplia os horizontes da própria vida: e eles são felizes para sempre.

O Leão da Neméia

Alguns tarôs antigos, e o atual tarô Mitológico, traziam a figura de Hércules matando o leão da Neméia como símbolo desse Arcano. Apesar de haver uma clara simbologia relacionando a vitória de Hércules a predominância da civilização sobre o Leão, significando a barbárie, tentar utilizar essa correlação com o tarô não consigo concordar. A força primordial do leão, um animal que prima simbolicamente pela coragem e realeza, não necessita ser sufocada para que usando sua pele possamos absorver sua força. Este leão não é nosso inimigo, ele faz parte de nós!

Nesse arcano estamos indo a busca de nossos instintos naturais: aqueles que nos mantém vivos e alertas. Eles são a diferença em nossa força se estiverem integrados a nós. Se os ignorarmos, tal qual feras enjauladas e sem alimentos eles poderão se rebelar e nos devorar. Eles se voltarão contra nós. Tenho encontrado muito o verbo domar quando se trata desse arcano, termo com o qual discordo profundamente. Se pensarmos em como um animal é domado em circos (ou mesmo fora deles), veremos que torturas são impingidas, a cada erro são dados castigos mais fortes e, uma perda da identidade natural quando são mantidos em jaulas minúsculas com condições abomináveis de vida. Toda a altivez do animal é reduzida a pó, embora necessite fazer um bom espetáculo senão os castigos podem ser ainda maiores.

A sociedade como um todo impôs que todos devíamos ser civilizados. Devíamos rejeitar os instintos naturais (diretamente ligados à intuição) em prol do que podíamos explicar ou esperar. Somos educados a minar esses instintos, sem conhecê-los direito, de forma que não percebemos sua importância até que precisamos nos defender e algo invisível nos falta. Precisamos dizer não e não sabemos como, precisamos demarcar nosso espaço para que não nos invadam e não entendemos demarcar, precisamos preservar nossa auto-estima de pessoas invejosas e tememos magoá-las nos distanciando. Quando mutilamos nosso instinto, nos tornamos doentes e indefesos. Suas garras são nossas garras, seus dentes afiados são nossos dentes afiados, sem isso estamos a mercê. Se o desorientamos, não poderemos perceber quando estiverem invadindo nosso território. É o seu alerta que irá nos avisar quando estivermos a um passo da autodestruição.

"Ainda que dê a impressão de dominar o leão, a dama também participa da sua essência."
Sallie Nicholls – Jung e o Tarô


O Equilíbrio – A Busca e a Cura

Voltemos a frase do final do primeiro tópico é preciso curá-lo para que recupere a própria força. Para tanto, precisamos sair em busca de nosso instinto e parar de aparar-lhe as unhas ou arrancar-lhe os dentes. É preciso acalmá-lo para que ele nos deixe cuidar dele. No início pode não ser fácil, mas é necessário.

“Eu sei, que o coração perdoa
Mas não esquece à toa e eu não esqueci
Não vou mudar, esse caso não tem solução
Sou fera ferida, no corpo e na alma
E no coração”
Fera Ferida – Roberto Carlos e Erasmo Carlos

O equilíbrio e, consequentemente, a cura virá da eliminação do medo: se não temermos sermos dominado pela fera e nem nos mostremos dispostos a subjugá-la, estaremos fazendo as pazes. Não podemos continuar alimentando o medo de nós mesmos. A falsa idéia de que estar equilibrado é estar sempre calmo e controlado é uma armadilha. Se algo nos descontrola precisamos buscar a causa do descontrole, não tentar eliminar o sintoma. Se a ira nos torna pessoas insuportáveis, é preciso entender o motivo pelo qual ela nos acomete e não simplesmente reprimi-la.

Fazer com que a fera volte para nós e a fazer parte de nós é um longo processo. Mas que pode resgatar a noção de realidade: aquela em que não nos violentamos para sermos agradáveis.

"Não estou no mundo para corresponder às expectativas alheias. Minha vida pertence a mim. E isso é igualmente verdadeiro para os demais seres humanos."
Nathaniel Branden

É preciso uma força brutal para reconhecer e aplicar a frase acima. É preciso que esta força não tenha sido domesticada dentro de nós mesmos para que tenhamos a energia necessária para conquistarmos nossa própria vida. É hora de curar as feridas do seu leão, dar a ele tempo para convalescer e depois deixá-lo lentamente recuperar a autoconfiança. Recusemos deixá-lo em cativeiro. Deixá-lo é permanecer em cativeiro também.

domingo, 24 de janeiro de 2010

A Torre - Rupturas e Libertações

Por Ana Marques


Há quanto tempo rejeitamos as tempestades que chegam, aparentemente, sem avisar? Há quanto tempo ignoramos os avisos que nuvens negras se acumulando no horizonte vinham trazendo? Há quanto tempo receamos ver qualquer perigo rondando nossa bem montada estrutura a ponto de nos cegarmos diante de tantas mensagens? A nossa cegueira, cada dia mais profunda, nos impede de perceber as sutis transformações que vão acontecendo ao nosso redor: raios esparsos, céu carregado, eletricidade no ar, uma ansiedade sem nome. E, aparentemente surpresos, vemos a tempestade desabar.

Não importa por qual meio procuremos nos esconder; quantas casas, sobrados, castelos, torres ou fortalezas construamos para nos proteger. Em algum momento, tudo rui ao nosso redor. Por mais que desejemos continuar nossa vida como sempre foi, somos derrubados quando nos recusamos a nos libertar sozinhos.

Em algum momento os raios e trovões mostrarão a fúria da natureza perante a nossa imutabilidade e atingirão a nossa Torre. Não importa com qual material e técnicas a tenhamos construído, ela virá abaixo.

A Torre dos Traumas

Composta de dores e mágoas, a primeira torre se mostra quase indestrutível. Repleta de lembranças, finca suas bases no passado e o resultado no presente. Dentro dela estão todos que impedem o passado de permanecer onde deveria: no passado. Dentro dela estão os inseguros, vacilantes, incapazes e indecisos. Mas nenhum desses adjetivos visa diminuí-los, mas mostrá-los tais como vêem a si mesmos: inseguros para recomeçar, vacilantes para dar novos passos, incapazes de seguir em frente e indecisos quanto à própria capacidade.

Esquecidos de observar a constante mutação da natureza à sua volta, se prendem a comportamentos padrões que visam protegê-los de qualquer mudança de atitude, e permanecem repetindo que a experiência os ensinou ou a vida os fez assim. Eximem-se da responsabilidade sobre a própria vida e aceitam resultados previsíveis apenas para não correr riscos.

Escondidas atrás das paredes de seus traumas passados e da pena daqueles que cruzam seu caminho, essas pessoas permanecem justificando o presente através de suas memórias e à custa do próprio futuro. Impedem-se de ser mais verdadeiras consigo mesmas, com suas atitudes e com o próprio caminho, vivendo no dia a dia de uma rotina cômoda e, por isso mesmo, limitante.

Existem traumas de todos os tipos e cada um deles constrói a mesma torre. Nela colocamos tudo que vivemos, como base para o que não desejamos mais e, dessa forma, justificamos atitudes, loucuras, medos e incertezas.

Não seguiremos à direita, porque quando por ela caminhamos, tropeçamos numa pedra; não amaremos ninguém porque alguém nos traiu; nos comportaremos como neuróticos medrosos porque sofremos perdas; nunca confiaremos em determinada pessoa porque um dia ela se comportou dessa forma, etc., etc., etc.

As listas de desculpas são infinitas. No entanto, não passam disso: desculpas.

Permitir que os fatos passados determinem o nosso presente e, conseqüentemente, nosso futuro, é a construção de uma torre baseada no medo, na fraqueza e no comodismo. Ela é extremamente confortável, posto que desperta a pena e a simpatia alheias. Desperta a certeza de que as pessoas compreendem sua necessidade de proteção e desejarão protegê-lo. Mas isso significará adicionar mais tijolos à já sólida construção. E, enquanto preocupam-se em assistir ao filme repetido dos sofrimentos antigos, enquanto interessam-se por continuar despertando a compreensão dos espectadores eventuais, a tempestade se aproxima...


A Torre da Espiritualidade

Um caminho de buscas e encontros espirituais. Nossos anseios são preenchidos pelos conceitos metafísicos descobertos. Um mundo de segredos, de códigos e de práticas se abre à nossa frente. Nos tornamos conscientes de que, a cada ritual praticado para modificar nosso interior, nos aproximamos mais e mais de uma transcendência que o restante da humanidade – coitada! – sequer pode sonhar. Aos poucos, esse caminho se mostra tão perfeito e nos torna pessoas tão melhores que precisamos dividi-los com os outros. Passamos então a angariar discípulos, criar associações, dar palestras e cursos. Todo nosso caminho se volta a guiar pessoas.

Algumas vezes, alguns dos que nos procuram questionam nossos métodos, caminhos, posições e posturas. Curiosamente eles colocam perguntas que parecem ser acusações veladas. Sentimo-nos injustiçados pelo tanto que os ajudamos e pelo fato que, ainda assim, eles insistem em não retribuir. Em outras vezes, amigos próximos ou pessoas que trilham caminhos semelhantes, colocam em xeque nossos posicionamentos e conselhos, argumentando não verem aplicarmos os mesmos em nossa vida. Novamente, arvorando-nos em nossos conhecimentos e estudos, colocamos inúmeros motivos pelos quais todos estão errados.

No entanto, bastaria um olhar em nossa vida para ver as ilusões que estamos nos impingindo. O que ensinamos, não colocamos em prática. O que estudamos, não conseguimos aplicar. Na aparência de “supremas autoridades” nos escudamos, para não precisarmos de justificativas. Os discípulos assistem ao espetáculo da tranqüilidade enquanto que, nos opositores ou nas pessoas próximas, descontamos nossas frustrações. Por mais que a capa da invisibilidade que desenvolvemos disfarce nossos defeitos e nossas idiossincrasias, que nos recusamos a trabalhar e integrar, esses tumores alimentados pelas células cancerosas de nossos medos continuam se multiplicando. E assim os trovões, ao longe, podem começar a ser ouvidos...


A Torre da Perfeição

Dessa torre, apenas um incômodo interior, uma sensação de vazio, de torpor diante da vida, pode detectar a existência. É quase como que um aperto constante no peito, a denunciar que algo está errado nessa vida perfeita. Exatamente por ser tão pouco visível, é uma das mais difíceis de destruir conscientemente. Quem está de fora, nos inveja pelas conquistas que tivemos: o emprego certo, o casamento certo, os filhos certos, a casa certa, o status certo. Qualquer um que nos olhe, verá apenas o que existe de bom e maravilhoso na vida que temos. Mas ninguém irá sentir (ou perceber) aquele aperto no peito que dia e noite nos incomoda.

Tenha sido por acaso ou fruto de um longo trabalho, a vida construída é admirada e faz de nós o orgulho de nossos pais. A maioria das pessoas nem entenderiam se falássemos ao discorrer sobre a busca de um sentido da vida, acreditando que não tivéssemos porquê reclamar sendo que as necessidades visíveis estão preenchidas.

No entanto, a sensação de desconforto permanece e nosso mundo perfeito parece não combinar em alguns aspectos. Mesmos que as cores e as posições pareçam corretas, algo nele desvirtua a perfeição aparente. Algo nele nos remete ao frio imenso que reina num canto escondido de nós. E, de tanto olharmos, num determinado momento a resposta nos vem, tal qual o som de um trovão: falta vida. Falta ali a nossa vida. No quadro que pintamos e mostramos ao mundo, não estamos presentes em essência. Apenas nossa máscara encara os passantes, nos olha de volta no espelho e convive com os presentes. Os relacionamentos amorosos, pessoais, profissionais, obedecem aos limites impostos por ela. Optar por permanecer mascarado, mesmo reconhecendo a insatisfação advinda disso, é aceitar a estagnação em prol do comodismo e, enquanto isso, o vento torna-se a cada momento mais violento, e o som do trovão mais forte...

A Libertação

Cai a tempestade.


Trovões ribombam de forma ensurdecedora. Ventos parecem querer nos arrancar do lugar. Receosos, desejamos nos esconder da fúria da natureza. Porém, hoje, as vítimas somos nós: nós e nossos medos, nossas fraquezas, nossos traumas, espiritualidade e perfeições. Debaixo da cama, dentro da torre construída com tanto empenho, sentimos seu tremor. Seus tijolos já não passam tanta segurança e suas estruturas parecem prestes a ruir. O temporal aumenta de intensidade. Um raio, mais forte e brilhante que os outros, corta o céu com destino certo: a nossa torre. Ele acerta o topo do nosso orgulho, dilacerando nossas defesas e nos atirando para fora da nossa zona de conforto. Caímos feito sacos de farinha no chão, indignados por sermos tão frágeis quanto, mais cedo ou mais tarde, descobrimos que somos. A chuva molha nosso rosto pela primeira vez em muito tempo. O vento castiga nossa face como há muito não fazia. O que fazer agora? Para onde ir? Sabíamos que um dia a natureza, interna e externa, iria se revoltar e nos forçar a busca de um novo caminho.

Não importa realmente como essa queda se dê. A própria estrutura dinâmica da vida não admite a permanência: viver é estar em constante mudança. Tentar ficar dentro de uma redoma, mesmo que construída com os melhores motivos (ou desculpas) possíveis, é estar contra o fluxo natural. Dentro de nossos corpos, diariamente, os órgãos se renovam. Da mesma forma, nossos atos precisam nos levar ao encontro à renovação, ao encontro a novas vidas, todos os dias.

A chuva, após a tormenta inicial, vai amainando aos poucos. Os raios cessam, os trovões já não podem ser ouvidos. Olhamos em volta e percebemos que podemos seguir para qualquer caminho, já que perdemos tudo que tínhamos. O céu permanece escuro, mas podemos pressentir a presença do sol. Ele está em algum lugar entre aquelas nuvens.

Está na hora de ir encontrá-lo.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O Eremita e a Roda da Fortuna



IX - O Eremita


Da luz do Eremita a nossa própria luz interior renasce, fitando seus olhos bondosos e seu semblante de quem muito viveu e muito tem a nos ensinar. O lampião ilumina seu caminho, fracamente até, se pensarmos numa noite escura sem lua, mas é o suficiente para que ele enxergue o próprio caminho e que se faça enxergar pelos outros. Suas roupas não são luxuosas, nem seu bastão é adornado, o próprio lampião é simples e poderia ser adquirido em qualquer mercado; os atributos do Eremita estão além dos olhos, é preciso enxergar sua alma para poder reconhecê-lo. Sua simplicidade é o retrato do que ele buscou: a essência. Em uma solidão auto-imposta, ele passou por um período de reconhecimento de si mesmo e de aprendizado pela observação e pelo silêncio interior. Vagarosamente, a solidão deixou de ser um martírio, para se tornar um benefício: ele aprendeu a apreciar a própria companhia.

Distanciou-se das preocupações cotidianas para que seu tempo estivesse ocupado em aprender as leis universais que rege cada um de nós. O Eremita abriu mão da vida em sociedade para que pudesse descobrir sua própria luz, longe das luzes artificiais das cidades. Seu caminho anterior encontra-se resolvido, por isso ele não sente a menor necessidade de olhar para trás e ver o que deixou. Sua escolha foi feita de forma consciente, e por isso, não existem arrependimentos. O bastão o apoia, o protege (sempre pode ser usado como uma arma) e reforça sua integração com a terra, não deixando que ele passe a se sentir acima da humanidade por causa das descobertas que fez. Suas roupas são práticas, podem protegê-lo das interpéries e ao mesmo tempo não o impedem de caminhar livremente. O lampião é a luz que ele próprio alimenta, sem que sua inteligência esteja a serviço essa luz apagaria rapidamente, e isso nos mostra uma lição: não existe luz eterna, qualquer que seja ela precisa ser alimentada conscientemente.

Seu desafio consiste em não criar falsas imagens de um Eremita e mergulhar na imitação do que não tem relevância: a aparência, as roupas, o bastão, o lampião. Vestir-se como um não efetua nenhum tipo de transformação, a luz que alimenta o lampião vem de dentro. Além disso, buscar um isolamento literal da sociedade não é imperioso, já que a mensagem é não deixar que as preocupações da sociedade impeçam que haja espaço para que floresça a essência da sabedoria. E por último, é preciso aprender a conviver com a solidão, de forma que ela não se torne sua única companheira - fazendo de si mesmo um ser arredio à companhia dos outros - ou pior ainda, que a procure como uma fuga a um feroz sentimento de inadequação em relação aos outros. Vestir capas para acobertar esses qualquer um desses problemas não os solucionará, apenas fará com que o tempo faça-os mofarem e cheirarem mal.

Utilização Prática: A vida lhe apresenta o caminho do aprendizado. Ele pode até mesmo se apresentar como as três vias da Cabalá: a aprendizagem pelos livros, depois pela orientação de um guia e por último a experiência direta da união extática com Deus. Entender essas fases, para não perder-se em preconceitos é fundamental:
1-A aprendizagem pelos livros - quando falamos de aprender a partir dos textos, em momento algum é desprezado a sabedoria interior, mas para que possamos abrir e expandir nossa mente o caminho dos livros e das experiências dos outros pode nos abrir indagações que demoraríamos um tempo muito maior para assimilar.
2- Orientação de um guia - O preconceito pode fazer com que muitos desejem pular essa parte, mas é importante esclarecer que temos "professores" ou "guias" em todo tempo de nossa vida. Podemos aprender ouvindo de um trauseunte na rua uma frase perdida que nos toque e faça brilhar uma luz em nosso interior. Conversar e trocar experiências com pessoas mais vividas e/ou mais velhas também são fontes inesgotáveis de saber, não é preciso que se aceite a experiência alheia literalmente, mas ouvi-la pode nos trazer pontos de vista não imaginados de uma situação vivida. Saber ouvir, além de discutir e filtrar o que se ouve, faz parte do processo do aprendizado que leva a sabedoria.
3- União extática com Deus - É importante não abrir mão desta última, independente da religião seguida (ou mesmo da falta dela), já que ela significa a união com o Deus interior.
A chama que precisa ser acesa, e alimentada, é a nossa centelha divina. E essa mensagem está sendo claramente apresentada em seu caminho. Enxergá-la, entendê-la e aplicá-la faz parte do processo de aprendizado que o Arcano veio lhe trazer.

X - A Roda da Fortuna

Gira o mundo e com ele a vida, analogia perfeita para a Roda da Fortuna. Quem está em cima, logo estará embaixo. O que sobe tem que descer. O poder é ilusão passageira e a sabedoria nos mostra que o destino segue inexorável para aqueles que seguem em sua vida na superfície. Um dia após o outro, tomando decisões sem conhecer as motivações interiores.

Vemos na Roda a figura de uma mulher vendada (alusão a Justiça) que retarda a subida de um homem, outro rapaz acaba de ser alçado para fora do poder e se encontra em queda enquanto um terceiro está no chão, esperando o momento em que puder escalar a roda novamente. Dessa forma, todos ali são regidos pela mulher que não os vê, são todos iguais em sua indiferença e, portanto fáceis de manipular. Completamente inconscientes, eles se preocupam apenas com o status atual. Cada um segue tal qual fantoches, sem perceber que não são livres e nem estão fazendo escolhas, apenas se deixam levar pelo fluxo da vida. O único que sorri e permanece além de todo esse sofrimento é o garotinho que se encontra acima da roda. Ele não depende de seu movimento, porque suas decisões vêm do mais profundo do seu ser. Ele não é regido, mas rege.

A Roda da Fortuna mostra as mudanças que todos passamos na vida, mas coloca-as fora de nós, onde em vez de agirmos em nosso caminho, apenas reagimos aos estímulos encontrados. É preciso mirar o garotinho fora da roda, e compreender que as mudanças tem que vir de dentro de nós para fora, de forma que não nos entreguemos a uma rotina massacrante.

O grande desafio desse Arcano é fazer as próprias mudanças, buscando a consciência em cada ato, desligando o piloto automático para que possamos verdadeiramente dirigir a nossa vida.

Utilização prática: Quando este Arcano aparecer, prepare-se para mudanças: elas vão ocorrer. Procure nessa oportunidade refletir em que ponto você buscou mudanças ou se elas vieram ao seu encontro pela entrega que fez da própria vida nas mãos do destino. Investigue as mudanças, porque elas podem abranger vários aspectos da sua vida. E aproveite também refletir como é sua reação as essas modificações, o quanto sofre pela perda da estabilidade alcançada e como lida com o novo na sua vida. É preciso mudar, para que a vida continue. E se não mudamos sozinhos, a vida muda por nós.

domingo, 8 de novembro de 2009

O Carro e A Justiça

Por Ana Marques

VII - O Carro ou A Carruagem



Neste momento, o carro nos entrega as rédeas. Para entendê-lo é preciso que nos lembremos de suas funções práticas no dia a dia e delas retiremos as lições necessárias. Notem que o auriga (ou motorista, em termos mais modernos) não é o personagem principal. A sua função é apenas conduzir o veículo, seja ele uma biga, uma bicicleta ou um carro esporte. O carro está acima da terra e abaixo do céu, ele nos coloca em contato com o meio, com o intermediário e com a distância. Nem mais estamos em contato com a Terra, e ainda não alcançamos o céu, não vemos água e o ar nem mesmo consegue refrescar nosso rosto. Estamos órfãos dos elementos exatamente para que possamos senti-los, para que possamos buscá-los, para que possamos percebe-los em nós e não apenas fora de nós.


É importante ter as rédeas do teu veículo, mas para alcançar o destino que realmente deseja, é importante saber para onde se deseja ir e por qual caminho. O grande aprendizado da viagem não é o ponto de chegada, mas a estrada em si: é ela, com seus buracos, obstáculos, surpresas e vistas maravilhosas, que mais nos ensina. Para que consigamos dirigir, precisamos mais que controlar o veículo, precisamos conhecer e controlar a nós mesmos antes que numa curva qualquer do caminho nos atiremos num precipício por puro descontrole ou descaso.
O desafio desse arcano é obter o controle, as rédeas, a direção sem nos distanciarmos de nosso objetivo. E mais que chegar a algum lugar, precisamos ter certeza que estaremos orgulhosos da forma como o fizemos.


Utilização prática: O carro nos traz a mensagem sobre objetivos e conclusões. Ele nos mostra que temos um longo caminho pela frente, antes de chegarmos a qualquer lugar. Esse caminho, repleto de surpresas, é que irá fazer a diferença quando chegarmos ao nosso destino. Importa sim quais são os meios, dizer que não é negar o próprio aprendizado da vida, posto que o objetivo conhecido de todos é a morte. Importa conhecer quem é aquele que dirige, apenas o domínio de si mesmo poderá fazer com que aquele que é dirigido (o Carro, os animais) o obedeçam. A vida lhe chama para que você aceite a responsabilidade de conduzi-la, do destino resultado da estrada que está seguindo, do aprendizado que o caminho tem a lhe mostrar. Aceitar essa responsabilidade é uma opção, mas fugir dela é deixar que o acaso tome as rédeas e isso, por si só, já é um caminho.




VIII - A Justiça



Do prato da justiça pende a balança que nos mostra como está nosso equilíbrio, nossa capacidade de ser imparcial diante das questões da vida: da nossa vida. O velho conceito de que a justiça é cega pode nos iludir a todos se o entendermos da forma literal, mas na realidade fechar os olhos físicos é abrir os olhos interiores: nem sempre os fatos mostram a realidade em toda sua abrangência; muitas vezes eles conseguem apenas nos fornecer os ângulos incompletos de um problema. O mesmo fato observado por várias pessoas terá descrições diferentes, às vezes até opostas. Exatamente por isso, é preciso que nos concentremos no que nos diz respeito, sem tentarmos posar de juízes dos outros, quando as visões que temos dos problemas alheios não conseguem incluir as suas experiências.


A deusa sentada ao trono tem a espada de fio duplo levantada. Esta espada mostra claramente que a busca pela justiça é uma luta, muitas vezes uma luta mental - posto que a espada é, normalmente, associada ao elemento AR - mas além de tudo, por cortar de ambos os lados, simbolizando que toda questão é ambivalente. A ética interior é o princípio que conta no momento da escolha, na hora de verificar qual dos lados pesará mais.


É preciso que uma visão aguçada, que vá além daquilo que desejamos ver, seja desenvolvida. A coruja traz em sua figura tanto a sabedoria, como a visão. Durante a noite, quando "todos os gatos são pardos" ela pode enxergar claramente e, dessa forma, caçar a sua presa. Se, como ela, conseguirmos ver além das sombras enganadoras da obscuridade, podemos trazer nosso objetivo até nós: um objetivo real e não algo que apenas se pareça com ele.


O desafio da justiça é ser imparcial em seus julgamentos. Deixar-se levar pelos desejos e paixões interiores de forma desenfreada, sem colocá-los em suas devidas proporções, é entregar as escolhas ao acaso, algo como: "se eu der sorte, isso vai funcionar", completamente desprovido de lógica. É importante olhar para dentro, e utilizar a força interior para que suas escolhas sejam conscientes e não apenas impulsos vazios.


Todo esse desenvolvimento visa desenvolver uma ética interior, mas que - seja bem frisado - só valerá para nós mesmos. Utilizar essa ética para julgar os outros é um exercício de egocentrismo, onde defendemos que nossa visão é a melhor e mais correta para todos, sem perceber que ela é limitada ao nosso mundo (criação, meio, cultura, herança) e que não temos alcance para compreender o mundo alheio. Por isso, o desafio também é composto de humildade para que possamos entender que o poder do julgamento é nosso, para nosso uso pessoal.


Utilização prática: A vida lhe apresenta as ferramentas para que se conscientize de como chegar a uma decisão justa e ponderada, que vale apenas para você. Ela o prepara para a luta que cada um de nós enseja quando estamos dispostos a defender nossa integridade pessoal e ética do mundo que tenta nos moldar a padrões pré-estabelecidos. Você tem a sua disposição a sabedoria interior, que é encontrada no silêncio, e o conhecimento de onde deseja chegar. É preciso levantar a espada, segurando-a firmemente, mesmo que não se tenha a intenção de usá-la até que seja necessário. A firmeza é exigida para que todo o teu mundo exterior aceite e se molde aquele que o comanda: você.